Não foi sem entusiasmo que aceitei o convite de Neilton Lima para me tornar um dos membros do coletivo mantenedor do Blog Onhas: Este espaço que ora se apresenta como um tímido portal de notícias, mas que nas pretensões de seu idealizador, e colaboradores, se delineia como âmbito de discussões e reflexões sobre o conjunto das processos humanos que compõe a teia de relações da região do Vale do Jequitinhonha. Além desse espaço virtual pretendemos que o Onhas seja também um coletivo de práticas de intervenções sociais.
O convite veio em momento oportuno, pois, em conjunto com um grupo de colegas de faculdade, estou desenvolvendo um projeto multidisciplinar com o intuito de promover junto aos agentes sociais do vale uma reflexão sobre o que chamo, sempre em tom de brincadeiras, de “Jequitinhonidade”. Ao lançar mão desse termo pretendo demarcar como objeto das questões aqui tratadas o modo de existir do povo do vale, tentando identificar uma possível identidade cultural.
Estudante de filosofia, pretendo realizar, ao largo de minhas intervenções, reflexões acerca da lógica específica do estado atual de coisas existentes e manifestas no artesanato/arte, nos valores, na história, no social, nas relações interpessoais, nas militâncias e na vida cotidiana do vale do jequitinhonha, valendo-me de elementos filosóficos, mas mantendo-me sempre vigilante para não perder o fio das expectativas e tornar a atividade hermética e distante dos interlocutores. Enfim, será necessário sempre a ótica dos leitores para nortear as publicações. Por isso, solicito aos mesmos que se manifestem sempre que uma das intervenções não parecer clara ou estiver carregada de conceitos sem as devidas explicitações. Fica explícito, pela própria estrutura interativa que pretendemos desenvolver no Blog, que as opiniões aqui manifestas são de inteira responsabilidade de seu autor e não se pretendem como definitivas, tampouco se arrogam a pretensão de esgotar as possibilidades de se decifrar tal ou tal aspecto da jequitinhonidade. Antes disso, o que se pretende é postar uma série de “provocações” na expectativa de que façam eco nas preocupações e reflexões dos agentes interessados e engajados na consolidação de um vale politicamente unificado, economicamente sustentado e reconhecido como vale de cultura. Desse modo, essas incursões, pretensamente filosóficas, visam manter um espaço de diálogo onde o mais importante é encontrar argumentos que possam definir o modo de se produzir e reproduzir a vida, material e espiritualmente, no Vale do Jequitinhonha.
Segundo a definição do dicionário Michaelis on-line o termo “vereda” apresenta as seguintes definições: 1 Caminho estreito; atalho, senda. 2 Rumo, direção, carreira, ordem ou modo de vida. 3 Grupo de matas cercadas de campo. 4 Local fértil, com vegetação abundante. 5 Reg (Nordeste) Região com maior abundância de água, localizada em vales, na zona das caatingas. 6 Reg (Bahia) A várzea de um rio. 7 Reg (Goiás) Clareira na vegetação rasteira. 8 Reg (Centro) Grupo de matas cercadas de campos, com renques de buritis e pindaíbas pelos cerrados. sm pl Bot Vegetação mesclada das formações das regiões semi-áridas, localizadas num solo arenoso aluvial com relva dura [1] . Estamos baseando nas definições 1 à 5 para elaborar o título dessa Coluna, inspirado metaforicamente na imagem de um caminho que conduz à um lugar fértil e abundante em águas e vegetação, onde os mananciais representam a cultura e a vegetação os homens. Uma vez que trataremos das questões de um ponto de vista filosófico específico implica que devemos centrar nossas atenções nas interações práticas em que a natureza, o ser humano e a sociedade são pólos que se determinam mutuamente, engendrando a história , a cultura e a sociabilidade. Ou seja, a matéria prima de nossas incursões é a historicidade da cultura e a sociabilidade específicas do Vale do Jequitinhonha. Assim, a metáfora da Vereda assume para nós a dimensão de um lugar abundante em “águas” humanas e riquezas naturais socialmente integradas na emancipação humana.
Contudo, as posições desse autor são visionárias e não se detém em apreender o vale como um idílio ou lugar de veraneio. Precisamente por isso, pretendo que minhas intervenções assumam um tom à beira da militância com o intuito de ensejar o debate e o combate radical à miséria material, espiritual e ideológica que se impõe como entraves à emancipação humana. Isso remete-nos a obrigação de esclarecermos que é, afinal, a emancipação humana de que falamos.
De nossa parte, não se trata de um desiderato utópico. Mas de um processo histórico e social que teve sua gênese na gênese mesma do homem. Considero- baseando no meu parco conhecimento das premissas apresentadas nos Manuscritos Econômicos e Filosóficos de Karl Marx – que o homem é um ser genérico, isto é, que se expressa no gênero humano. Assim , a gênese do homem é também a gênese de sua emancipação. Esta, em primeira escala, se processa em relação à natureza e em um segundo instante assume a exigência de emancipação com relação às formações sociais. Por hora, ressalto que pretendo detalhar estas questões em outras intervenções. Basta apenas indicar, que somos contrários a lógica unívoca da exploração do homem pelo homem e da natureza pelo homem, posto que o gênero humano é também gênero natural, a degradação ambiental é igualmente degradação humana. Por isso, pretendemos refletir também sobre as questões ambientais em pauta na atualidade, sempre com vistas voltadas para as implicações dos fenômenos em escala global no metabolismo social do Vale.
Naquilo que tange aos problemas sociais teremos que buscar as raizes nos resquícios deixados pelo patriarcalismo, os vestígios de preconceitos diversos contra a mulher, o negro e as relações homo-afetivas. No campo da política, as práticas coronelistas que, embora extintas dos quadros teóricos de análises acadêmicas, se fazem vibrantes nos processos eleitorais pelo Brasil – e no vale não é diferente. É do conhecimento e do senso comum que a jequitinhonidade apresenta como característica uma intrínseca relação entre o rural e o urbano e entre o regional e o Global, por isso, quando abordarmos sua dinâmica será necessário recuperar a lógica global e a ordem capitalista consolidada em todos os âmbitos da vida pública e privada.
As demandas são muitas, por isso, defino a Vereda Filosófica como lugar de abundancias de águas humanas e riquezas materiais e espirituais que serve de substrato para a reflexão acerca da própria condição humana. Certo de que os leitores compreendem a urgência de levar a cabo debates sobre a situação humana em época de corrosão dos valores, da instituição do deus-mercado e seu filho unigênito, Dinheiro, como essencialidades maiores da dinâmica social vigente, espero que essa Vereda seja abundante em águas de diversas nascentes que animem o debate e a reflexão sobre a consolidação de novos valores, tanto para o vale como para o gênero humano. Por isso, declaro aberto o caminho a todos aqueles que estiverem interessados em postar aqui suas próprias reflexões e expor ao debate suas idéias e posições acerca da jequitinhonidade. Basta apenas se registrar e a cada postagem marcar seu texto com a categoria vereda filosófica.

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