Login Registration

Notícias do mundo Jequitinhonha

Carta Nº 2 –  Pelo Vale

Fala seu moço… Como vai o prosear pelas entranhas cariocas? Carnaval já começou, desde cedo, imagino eu com certeira lembrança suada dos deliciosos bloquinhos da bela Santa. Minhas lembranças ao Manuel. De cá, o sol retornou, iluminando o colorir da terra.  E a estrada foi longa dessa vez. Trecho de Diamantina à Jordânia. Depois espia no mapa o trecho. Jordânia é cidade mineira viu cumpadre, ainda não consegui correr estrada até terras do oriente, um dia… Gasolina no “companheiro” (ainda não batizei o carrinho guia), livros (e algumas roupas) no porta-malas, viola na caixa (inclusive na de som) e pé na estrada. Pela primeira vez atravesso o Vale do Jequitinhonha, feito minino, tenho compromisso em Jordânia, mas compromisso foi a cada curva, a cada novo horizonte, a cada nova (nem sempre nova) paisagem. Fui pela primeira vez, a luz do dia, me apresentar para esse Vale diverso, de terra remexida a cada dia. Diamantina é município imenso que nunca imaginei. Desci a serra e ela, a terra do diamante, ainda tava lá. Cortei o rio Jequitinhonha, passei pela cidade de Couto Magalhães, espiei a entrada para São Gonçalo do Rio Preto e de repente, Diamantina novamente estava lá. Dizem que serra abaixo é domínio de/do cerrado, mas vi bioma novo, ecossistema que se é, mais diferente nem em planetas outros… Minha tristeza com as monoculturas não vem de hoje. Nossa tristeza! País diverso como o nosso, estudar e cultivar planta só? Como a vida ainda pede mais que uma planta(ção), que uma paisagem, que um olhar para o cultivar, ainda me permito a desilusão. Te digo amigo, rodei quilômetros e minha companhia foram eucaliptais. Os que eu lia nos livros. Me lembrei de minhas viagens de moleque para visitar minha família no interior de São Paulo. Prosa vai prosa vem, cana. Sono vai sono vem, cana. Curva vai curva vem, e tá ela lá de novo. Engraçado, essa paisagem sem graça vir querer aproar aqui, justo adonde? Em terra de migrantes… Dos que dão o suor (por vezes sangue) para a colheita da companheira dos estradeiros pelas bandas do Sum Paulo. “Venham cortar as colheitas de cá. Nossa cana carece, olha que o salário é bom! Não estranhem a volta pra casa, depois de tanto tempo… Por lá variedades nas curvas estarão assim, como aqui, quase nada. Espero que estejam acostumados”. Espero que não. Devo conversar com os empresários da silvicultura na estrada. Espero que com o que ouvir. Talvez sejam, por menos, melhor de prosa que de paisagem. Não tive sono. De certo porque monotonia de olhos cansados lutara com o assustar pelo não novo em cada curva. De repente: estrada de chão. Já sabia, por prosas de amigos. No mapa confio pouco, o espaço muda mais ligeiro. Mas a terra tava (mesmo) por lá. Construíram a tal da hidrelétrica das maiores, mas asfalto por donde seus caminhos, não vi não. Dizem que chega. Do estradar fico na sorte de torcer que seja com matutar feito pelos de cá, pelos sonhos dos daqui. Virgem da Lapa chega e com ela o asfalto novamente. Passagem de abastecimento do “companheiro” e despedida da Princesinha do Vale. Passo por Araçuaí. De passagem? E num foi. Não sei como meu peito resistiu o não parar, mas passou, estrada ainda era muita e meu dia dessa terra de alma grande inda chega. Não estava sozinho… A lua pediu passagem, demonstrou concordância. “Pare não, bora comigo por esse caminho, vem que te levo, logo voltas, destino”. E assim logo cheguei, após cortar por Itinga de beira, em Itaobim. Procurei canto pra dormir depois de deixar o carro em casa de queridos novos amigos. Deram solidário abrigo. Descanse “companheiro”, por hora. Resto do trecho irei com carro outro. Antes de dormir, em hotel de frente de praça, espiei pela fresta, cortina entreaberta. Praça, barzinho e novela compartilhada em telão de todos ver. Melhor assim… Tô lendo uma coletânea de entrevistas do Mautner. Lembranças de boas prosas. E cantorias. Como será Jordânia? Deixo o rascunhar por hora. Cama boa chama pra sonho. Amanhã horizonte continua na ponta dos pés. Abraços do estradar…

Itaobim, 18/01/11


Recebe nossas notícias. Cadastre-se.