Carta No 1 – O começo daquela que sonhamos
Quanto tempo companheiro… Não nos temos visto, de olhar, mas de prosa solta imaginada por essas estradas, nisso sim, estamos em dia. É feito hoje, e não de hoje, que as estradas nos ensinam o olho ao horizonte, buscando no infinito sentido maior no viver… Olho molhado, ouvidos em riste. Nessas estradas, ouvido fala no peito, paisagem tem som, ah isso cê sabe, sei que cê sabe, aprendemos juntos, que logo depois da próxima curva aí vem um canto qualquer que logo faz barulho, que chacoalha nosso caminhar. Hoje te escrevo com sons de tantas estradas. Começo aquela… Aquela que sonhamos… Aquela que sonhamos juntos… Coloquei a alma na estrada. É seu moço, tem lugar que tem gente que tem vida que tem história que tem futuro que recria o mapa de nosso ser. Apressa o passo em direção a novas vagarezas, rumo ao encontro com nosso próprio querer ser. Se lembra de nosso primeiro Festivale? Pois é companheiro, daquele veio mais um, e outro, e mais dois, e mais um, com prosas que num dá pra calcular, com um jeito novo de olhar pro sol feito de tanta gente… Te escrevo daqui, do Vale do Jequitinhonha, donde, sinto em mim, é difícil me dizer por si só, somos em meio a muitos, somos muitos, um sonho grande, um sonhozão, um sonho profundo. Me perguntaste certa vez, o que será este tal de Vale do Jequitinhonha, qual o estradar desse povo, pra onde o nariz aponta pras bandas de cá. E é tanto nariz, cumpadre. Tô aqui hoje, de conversa com o meu, de sentir cheiro de terra, por vezes molhada. Eh chuvarada… Agora, conversa boa tem sido dentro de mim, é nariz escutando prosa com cheiro matutado pelos ouvidos que, ocupado com aromas, pede ajudo dos olhos. Dias atrás pisei em Milho Verde, ao lado de linda e saudosa companhia. Planos, não tinha muitos, plano era do lugar, e ele tinha. Numa prosa, com nariz atento, descobri um canto pra ficar, e muito mais do que isso. O lugar me abriu as portas de Dona Coração, benzedeira cujo nome não me deixa mentir, de “coração maior”. Lá acompanhamos os preparativos apressados, “logo chega o Santo Reis!”. Corremos pra missa, de ouvido atento, e a cantoria começou, de casa em casa, de sorriso, de olho fechado, presépio em presépio, pela história do lugar, por vidas tantas de tanto pra contar, ensinar. E num é cumpadre que reencontrei amigos antigos em meio à folia. E tava Dino, o Dino, se lembra? Professor, dos melhores, de circo no Festivale. E amigos dos bons tempos de formação na terrinha Viçosa. Turma boa que sabe: pras bandas de cá tem mais do que o que se ver, tem o que se viver, de plano solto. Fim da folia. Por hora. Um sono abençoado. Um acordar abençoado. Mergulhos nas águas de descer pedra, um abraço apertado em Dona Coração e estrada de volta a Diamantina. Ouvidos em riste. Sons tão diversos. Sino, cantoria, a sirene da fábrica, de passarinho… De carro pouco, de prosa muito. E é prosa que não acaba. Prosa de casa, prosas longas, eu mais Fernanda e Paraná, amigos queridos (um dia te apresento), receitas, causos, histórias, vida de cá, filosofias de se pensar. Prosa de bar, tantos e tão charmosos os dessas bandas. Prosas de feira, dessas prefiro nem falar muito, porque cê sabe né companheiro, se eu começar a falar do mercado, de feira, papel num cabe. Vim companheiro, caí na estrada e estou aqui. Explicar o Vale acho difícil, entender ainda mais. Compartilhá-lo sim, isso posso. Me banhar em meio a esse rio, que hoje perto da nascente nasce nas solas dos meus pés como um novo horizonte. Isso quero! Não só de passagem, não apenas estrangeiro, mas sei que de passagem. Por hora. Nesse lugar tem vida, vidas tantas, com tanto amor pela história do seu chão, com tanto saber pra se viver, com tanto sonho suado para o amanhã que se faz, assim, em todos. Me encontrei pela primeira vez nessa viagem com o rio Jequitinhonha. Te conto depois. Carece uma carta só pra essas águas, que correm pro mar (de tanto ser). Bom poder lhe escrever companheiro. Semana que vem “apareço” novamente. De onde, num sei bem. De cá… Do estradar… Abraço apertado.
Diamantina, 17/01/11

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Mateus, meu amigo. Estou inaugurando o espaço para inserção de comentários. Vamos divulgar. Grande abraço.