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Notícias do mundo Jequitinhonha

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Marx aos 193

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John Lanchester

Originalmente Publicado na Revista London Review of Books Vol. 34 No. 7 · 5 de abril de 2012 Páginas 7-10 | 6016 palavras

 

Ao tentar pensar o que Marx teria feito do mundo de hoje, devemos começar ressaltando que ele não era um empirista. Ele não achava possível obter acesso à verdade ao juntar frações de dados da experiência, “pontos de dados” como chamados pelos cientistas, e então formar um retrato da realidade a partir dos fragmentos acumulados. Dado que é isto o que a maior parte de nós pensa fazer a maior parte do tempo, marca-se um rompimento fundamental entre Marx e o que chamamos senso comum, uma noção detestada por Marx, que a via como a forma de uma ordem política e/ou uma classe específica transformar sua construção da realidade em um conjunto de ideias aparentemente neutro, tomado então como dado da ordem natural. O empirismo, por retirar suas provas da ordem das coisas existentes, está intrinsecamente disposto a aceitar como realidade coisas que são apenas comprovação de vieses subjacentes e pressões ideológicas. O empirismo, para Marx, sempre confirmará o status quo. Ele teria desgostado em particular da tendência moderna de argumentar a partir de “fatos”, como se estes fossem pedaços neutros da realidade, livres das marcas históricas, de viés ideológico e interpretativo e das circunstâncias de sua própria produção.

Por outro lado, eu sou um empirista. Isso não é tanto por achar que Marx estava errado sobre o efeito de distorção das pressões ideológicas subjacentes; é por não achar possível alcançar um ponto privilegiado livre dessas pressões. Logo, tem-se o dever de fazer o melhor com o que é possível ver, especialmente não se furtar a observar dados desagradáveis e/ou contraditórios. Mas essa é uma diferença profunda entre Marx e meu modo de falar sobre Marx, o qual ele teria considerado como filosófica e politicamente inválido por completo.

Considerem estas passagens do Manifesto Comunista, escrito por Marx com Engels em 1848, após ser expulso da França e da Alemanha devido a seus escritos políticos:

O capitalismo submeteu o campo à cidade. Criou grandes centros urbanos. (…) Aglomerou as populações, centralizou os meios de produção e concentrou a propriedade em poucas mãos.

O capitalismo rasgou o véu do sentimentalismo que envolvia as relações de família e reduziu-as a meras relações monetárias.

O capitalismo foi o primeiro a provar o que a atividade humana pode realizar: criou maravilhas maiores que as pirâmides do Egito, os aquedutos romanos, as catedrais góticas; conduziu expedições que empanaram mesmo as antigas invasões e as Cruzadas. (…) O capitalismo (…) criou forças produtivas mais numerosas e mais colossais do que todas as gerações passadas em seu conjunto.

O capitalismo não pode existir sem revolucionar incessantemente os instrumentos de produção, por conseguinte, as relações de produção e, com isso, todas as relações sociais. (…) Essa subversão contínua da produção, esse abalo constante de todo o sistema social, essa agitação permanente e essa falta de segurança distinguem a época capitalista de todas as precedentes. (…) As velhas indústrias nacionais foram destruídas e continuam a ser destruídas diariamente.

Ao invés das antigas necessidades, satisfeitas pelos produtos nacionais, surgem novas demandas, que reclamam para sua satisfação os produtos das regiões mais longínquas e de climas os mais diversos.

Basta mencionar as crises comerciais que, repetindo-se periodicamente, ameaçam cada vez mais a existência da sociedade capitalista. Cada crise destrói regularmente não só uma grande massa de produtos fabricados, mas também uma grande parte das próprias forças produtivas já criadas.

É difícil não concluir desta seleção de frases que Marx foi extraordinariamente profético. Ele de fato teve o mais espetacularinsight sobre a natureza, a trajetória e a direção do capitalismo. Três aspectos que se destacam em especial aqui são o tributo pago por ele à capacidade produtiva do capitalismo, que excede em muito qualquer outro sistema político-econômico já visto; a reconstrução da ordem social vinda com isso; e a inerente tendência do capitalismo para a crise, para ciclos de expansão e contração.

Entretanto, devo admitir que não citei essas frases exatamente como Marx as escreveu: onde escrevi “capitalismo”, Marx havia escrito “a burguesia”. Ele falava sobre uma classe e o sistema que servia seus interesses, e fiz parecer que falava apenas sobre o sistema. Marx não usa a palavra “capitalismo”. O termo nunca aparece na primeira parte finalizada de Das Kapital. (Conferi fazendo uma busca pela palavra e a encontrei três vezes, todas aparentemente más traduções ou maus usos do plural alemãoKapitals – em alemão ele nunca fala de Kapitalismus.) Dado que ele é ampla e corretamente visto como o maior crítico do capitalismo, trata-se de uma singular omissão. Os termos preferidos por ele foram “economia política” e “economia política burguesa”, vistos como abrangendo tudo, desde direitos de propriedade, nossa ideia contemporânea de direitos humanos, até a própria concepção do indivíduo autônomo e independente. Acho que ele não usava a palavra “capitalismo” porque isso implicaria que o capitalismo seria um dentre inúmeros sistemas concorrentes possíveis – e Marx não acreditava nisso. Ele não pensava ser possível remover o capitalismo sem uma viravolta fundamental da ordem social, política e filosófica existente.

Ele estava certo: nenhuma alternativa se desenvolveu. A Economia como disciplina tornou-se efetivamente o estudo do capitalismo. Os dois são considerados o mesmo assunto. Se um dia houvesse um desafio sério e sustentado teoricamente à hegemonia do capitalismo dentro da Economia – um desafio sério e sustentado subsequente ao oferecido pelos assim chamados “socialismos reais existentes” –, este poderia ter surgido a partir da quase liquefação final do sistema econômico global em 2008. No entanto, tudo que vimos foram sugestões para ajustes do sistema existente para torná-lo menos arriscado. Temos no momento este híbrido monstruoso, o capitalismo de estado – um termo que era o preferido do Partido dos Trabalhadores Socialistas [Socialist Workers Party] para descrever a União Soviética, usado há algumas semanas na capa da The Economistpara descrever a condição econômica atual da maior parte do mundo. Isso é uma paródia da ordem econômica, na qual o público geral corre todos os riscos e o setor financeiro recebe todos os lucros – uma forma extraordinariamente pura do que se chamava “socialismo para os ricos”. Mas “socialismo para os ricos” deveria ser uma piada. A verdade é que este é de fato o modo como a economia global está trabalhando.

O sistema financeiro em sua condição atual apresenta uma ameaça existencial à democracia ocidental, excedendo em muito qualquer ameaça terrorista. Nenhuma democracia foi jamais desestabilizada pelos terroristas, mas se os caixas eletrônicos parassem de dar dinheiro haveria problemas em escala que colocariam os estados democráticos hoje constituídos em risco de colapso. Ainda assim, os governos agem como se houvesse muito pouco que pudessem fazer. Eles têm poder legal para nos recrutar e nos mandar para a guerra, mas não podem tratar de quaisquer fundamentos da ordem econômica. Parece bastante claro que a omissão da palavra “capitalismo” por Marx, por ele não prever nenhuma alternativa dentro da ordem social existente, era um momento especial de alta definição no funcionamento de sua bola de cristal.

Marx dá bastante ênfase à questão da origem do valor, de como mercadorias são comercializadas e o que é o dinheiro. É uma questão muito simples, mas que não havia sido feita com tal clareza antes; também é o tipo de questão não mais feita em nível profissional ou institucional, porque a ordem atual das coisas é dada como garantida. Mas é uma questão bastante básica e importante (ou duas questões): o que é o dinheiro e de onde vem seu valor?

Há várias centenas de páginas de Marx sobre esse assunto, e dezenas de milhares nos comentários e análises de sua obra, então meu resumo de sua visão será necessariamente simples e condensado de modo caricatural. O modelo marxiano funciona assim: pressões competitivas sempre forçarão para baixo o custo do trabalho, então os trabalhadores são empregados pelo preço mínimo, pagos sempre apenas o suficiente para mantê-los na ativa, e não mais. O empregador então vende a mercadoria não pelo seu custo de fabricação, mas pelo melhor preço que puder: um preço que por sua vez está sujeito às pressões competitivas, portanto, tendendo sempre a baixar com o tempo. Enquanto isso, porém, há uma lacuna entre pelo quê o trabalhador vende seu trabalho e o preço que o empregador obtém pela mercadoria; esta diferença é o dinheiro acumulado pelo empregador, que Marx chamou de mais-valia. No julgamento de Marx, a mais-valia é a própria base do capitalismo: todo valor no capitalismo é a mais-valia criado pelo trabalho. Isto é o que forma o custo das coisas: como Marx diz, “o preço é o nome em dinheiro do trabalho transformado em mercadoria”. E, ao examinar essa questão, cria um modelo que nos permite ver profundamente a estrutura do mundo, vendo o trabalho oculto nas coisas ao nosso redor. Ele torna o trabalho legível nos objetos e nas relações.

A teoria da mais-valia também explica, segundo Marx, porque o capitalismo tem uma tendência inerente à crise. O empregador, assim como o empregado, sofre pressões competitivas, e o preço das coisas que ele vende sempre tenderão a baixar devido a novos participantes no mercado. Seu modo de superar isso normalmente será introduzir máquinas para tornar os trabalhadores mais produtivos. Ele tentará obter mais deles empregando menos para fazer mais coisas. Mas ao tentar elevar a eficiência da produção, ele pode também destruir o valor, frequentemente produzindo muitos bens sem lucro suficiente, o que leva a uma mais-valia de bens concorrentes, levando a uma quebra no mercado e à destruição massiva do capital, levando ao começo de outro ciclo. É um aspecto harmônico do pensamento marxiano que a teoria da mais-valia leve direta e explicitamente à predição de que o capitalismo sempre terá ciclos de crises, expansão e contração.

Há dificuldades evidentes nos argumentos de Marx. Um deles é que muitos dos bens e mercadorias no mundo contemporâneo são agora virtuais (no sentido digital), tornando difícil ver onde está o trabalho acumulado neles. As palestras de David Harvey sobre O capital, por exemplo, o melhor começo para qualquer um estudando o mais importante livro de Marx, são de imenso valor, mas também estão disponíveis de graça na internet. Se você comprá-las em livro – é mais rápido obter informação lendo do que ouvindo – a mais-valia adicionada é praticamente apenas sua.

A ideia de o trabalho estar oculto nas coisas, e o valor destas surgir do trabalho fixado nelas, é uma ferramenta explicativa inesperadamente poderosa no mundo digital. Por exemplo, o Facebook. Parte de seu sucesso vem do fato de as pessoas sentirem que elas e seus filhos estão a salvo gastando tempo nele, por ser um lugar ao qual se vai para interagir com outras pessoas, mas fundamentalmente não arriscado ou relapso como as novas tecnologias com frequência são percebidas – como, por sua vez, o VHS era quando lançado no mercado. Mas a percepção de que o Facebook é “higiênico” (talvez seja esta a melhor palavra) sustenta-se pelas dezenas de milhares de horas de trabalho mal pago de pessoas no mundo em desenvolvimento que trabalham para empresas contratadas para rastrear imagens ofensivas, pessoas que, de acordo com um marroquino que foi à imprensa reclamar disso, recebem um dólar por hora para fazê-lo. Este é um exemplo perfeito de mais-valia: enormes somas de trabalho precário mal pago criando a imagem higiênica de uma empresa que espera valer 100 bilhões de dólares quando se lançar no mercado de ações neste ano.

Quando se começa a procurar pelo mecanismo em funcionamento no mundo contemporâneo, este é visto por toda parte, frequentemente na forma de mais-valia sendo criada por você, consumidor ou cliente de uma empresa. Check-in online e entrega de malas nos aeroportos, por exemplo. O check-in online é um processo que deveria de fato aumentar a eficiência dos procedimentos nos aeroportos, custando portanto menos tempo, que você pode gastar fazendo outras coisas, algumas economicamente úteis. Mas o que as empresas aéreas fazem é empregar tão poucas pessoas para supervisionar a entrega de malas que no final das contas não há economia de tempo para o passageiro. Quando se observa, vê-se que como as empresas aéreas precisam empregar mais pessoas para supervisionar os passageiros que não fizeram check-in online – caso contrário, os voos não sairão a tempo –, as filas desses passageiros se movem mais rápido. As empresas estão transferindo sua ineficiência para o consumidor, mas também estão transferindo para você o trabalho e acumulando a mais-valia. Isso acontece o tempo todo. Toda vez que você usa um menu via telefone ou serviços de mensagens de voz interativos vocês está doando sua mais-valia para as pessoas com as quais está lidando. O modelo marxiano constantemente insta a ver o trabalho codificado nas coisas e transações ao nosso redor.

No ano passado, a National Geographic apresentou “o ser humano mais comum do mundo” para comemorar o nascimento da sétima bilionésima pessoa. O único ponto sem controvérsia sobre esta pessoa era o fato de ser destra. (Na verdade, embora o uso de uma ou outra mão não seja controverso, isso é interessante visto que a taxa média de existência de canhotos está em mais ou menos 10 por cento, mas parece maior em sociedades com nível maior de violência. Ninguém sabe o porquê, mas sobre isso não há surpresa, pois o motivo de algumas pessoas nascerem canhotas não foi compreendido.) Que a pessoa seja um homem é um desenvolvimento relativamente recente. Nascem mais meninos do que meninas, em uma proporção de 103-106 para 100, porque meninos têm taxa mais alta de mortalidade infantil e, para equilibrar a proporção de gêneros da espécie, são precisos mais meninos. Mas a medicina moderna reduziu agudamente a mortalidade infantil na maior parte do mundo, e agora a diferença nas taxas de nascimento se alimenta de outras distribuições demográficas, as quais historicamente têm mais mulheres porque estas vivem mais, novamente por motivos não compreendidos. Além disso, de modo muito mais sombrio, a crescente prosperidade e as habilidades tecnológicas têm elevado a enormes disparidades nas taxas de nascimento, que só podem ter a ver com o aborto seletivo de meninas. A proporção de gêneros na maior parte da Ásia, em particular, elevou-se muito além dos níveis biologicamente possíveis. Na China e na Índia os dados censitários indicam que o nível nacional está em torno de 120 para 100. Em 2020, a China terá trinta a quarenta milhões de homens a mais do que mulheres abaixo dos 19 anos. Para colocar o número em perspectiva, quarenta milhões é o número total de homens americanos nessa faixa demográfica. Portanto, dentro de oito anos a China enfrentará a previsão de ter o equivalente à população de jovens americanos permanentemente constituída por solteiros. Uma das coisas sombrias sobre isso é que a “preferência por filhos”, como é chamada friamente na literatura, sobe com a renda e com a modernização – ou seja, tem subido fortemente. Isso significa dezenas de milhões de meninas perdidas.

Então “ele” é ele. Ganha menos de 8000 libras por ano. Tem um telefone celular, mas não tem conta bancária. Isso se encaixa no modelo marxiano de como o capitalismo funcionaria: ele não tem uma conta bancária porque o trabalhador típico é um proletário que nada tem para depositar em um banco; ele não tem qualquer capital; ele precisa vender seu trabalho pelo melhor preço que puder. Tem 28 anos – a idade média da população mundial, o “cara do meio”. Se você considerar que a pessoa mais comum do mundo pertence ao grupo étnico mais numeroso, segue-se que é um chinês Han. Então, este humano exemplar em 2012 é um homem chinês da etnia Han, de 28 anos, sem conta bancária, mas com um celular, ganhando em média menos de 8000 libras por ano. Sabem quantas pessoas se encaixam precisamente nestes critérios hoje? Nove milhões. Podemos até mesmo adivinhar seu nome: Lee, ou Li, o sobrenome mais comum no mundo. Há mais pessoas chamadas Lee do que há no Reino Unido e na França somados.

Não acho que Marx veria algo neste retrato que contrariasse seu modelo, para usar uma palavra da qual ele não teria gostado. Ele previu o desenvolvimento de um proletariado que realiza a maior parte do trabalho no mundo e uma burguesia que efetivamente possui o usufruto de seu trabalho. O fato de o proletariado estar no mundo em desenvolvimento, na prática varrido da vista da burguesia ocidental, em nada contraria essa imagem – um “proletariado externo”, como às vezes se chama. Peguemos como estudo de caso desse processo a empresa mais valiosa do mundo, no momento a Apple. O último trimestre da Apple foi o mais lucrativo de qualquer empresa na história: obteve rendimentos de 13 bilhões de dólares e vendas de 46 bilhões. Seus produtos mais vendidos são feitos em fábricas de propriedade da empresa chinesa Foxconn. (Foxconn faz o Kindle para a Amazon, o Xbox para a Microsoft, o PS3 para a Sony e centenas de outros produtos com os nomes de outras empresas na capa – não é um exagero tão grande dizer que ela fabrica todo aparelho eletrônico que há no mundo.) O pagamento inicial da empresa é de 2 dólares por hora, os trabalhadores vivem em dormitórios de seis ou oito camas, pelos quais têm de pagar aluguel de 16 dólares mensais. Sua fábrica em Chengdu, na qual é feito o iPad, trabalha 24 horas por dia e emprega 120.000 pessoas – pense nisso, uma fábrica do tamanho da cidade de Exeter – e nem é a maior instalação da Foxconn: esta fica em Shenzhen e emprega 230.000 pessoas, que trabalham 12 horas por dia, seis dias por semana. A resposta da empresa para escândalo recente sobre taxas de suicídio foi apontar que a taxa de suicídios entre os empregados da Foxconn é na verdade mais baixa que a média chinesa e que recusa milhares de contratações por dia; ambas as afirmações são verdade. Isso é que é chocante. Essas condições são iguais ou melhores do que a maior parte dos empregos equivalentes em fábricas na China, onde a maior parte dos bens do mundo é feita, e essa vida é amplamente vista pelos trabalhadores chineses como preferíveis às alternativas rurais remanescentes. E tudo isso, numa ironia tão grande que quase não há palavra para defini-la, no maior e mais poderoso Estado considerado comunista. Não creio que se possa descrever isso como condições de trabalho oitocentistas, mas estão bem próximas de cumprir o modelo marxiano de um proletariado alienado cujo trabalho é sugado e transformado em lucro para outras pessoas. Nosso Sr. Lee, de 28 anos, pode ser facilmente imaginado trabalhando em uma dessas fábricas.

Os desafios para a visão de Marx sobre onde estaríamos hoje aparecem quando se olha os detalhes. Se for observado o quadro geral, muito do que ele previu se tornou verdade. Temos uma burguesia opulenta que é internacional, mas que no mundo ocidental compõe a maioria da população, e uma força de trabalho proletária amplamente sediada na Ásia. Acrescente a isso a regularidade das crises econômicas, a crescente concentração de riqueza entre os já ricos e as pressões elevadas aparentes em todo lugar sobre a burguesia internacional – o “aperto” sobre a qual lemos tanto. Há um consenso geral de que não há mais refúgios, que não há fuga das mudanças econômicas, que o capitalismo se move em um ritmo mais forte do que os próprios podem se mover. Se você é um soldador, mas sua filha precisa estudar para ser uma engenheira de softwares para ter um emprego, isso é algo para o que provavelmente você e sua sociedade podem se adaptar; se você é um soldador e você precisa estudar de novo para ser engenheiro de softwares no meio de sua carreira produtiva, isso já não é tão fácil. Ainda assim, mudanças nessa escala são o que está implicado nos desenvolvimentos dos mercados de trabalho modernos. Isso é exatamente o que Marx queria dizer quando previu um mundo no qual “tudo que é sólido se desmancha no ar”. Não é, portanto, tão difícil convencer-se de que as previsões de Marx estavam corretas em certo nível de impressionismo.

O erro mais evidente em sua versão do mundo é com a questão das classes. Há algo parecido com o proletariado marxiano clássico disperso pelo mundo. Entretanto, Marx previu que este proletariado se tornaria cada vez mais uma força centralizada e organizada: de fato, esse era um dos motivos pelos quais provar-se-ia tão perigoso para o capitalismo. Criando as condições nas quais o trabalho certamente se organizaria e se reuniria coletivamente, o capitalismo estava obtendo sua própria derrocada. Mas não há um conflito global organizado entre as classes; não há proletariado global organizado. Não há nada sequer próximo a isso. O proletariado está nas filas para entrar na Foxconn, não para organizar greves lá, e o maior perigo que a China encara, que em certo sentido é onde está o proletariado hoje, é a desigualdade causada pelas fraturas entre o novo proletariado urbano e a pobreza rural da qual estão saindo. A China também apresenta tensões entre a costa e o centro e problemas crescentes com corrupção e má administração, que irrompem regularmente no que conhecemos como Incidentes de Grupo em Massa, IGM – basicamente revoltas antiautoritárias que ocorrem regularmente em toda a China e nunca são relatadas na mídia tradicional ocidental. Mas nenhum desses fenômenos tem a ver com classe, e dada a ênfase posta na obra de Marx na luta de classes organizada, é preciso relacionar isto como uma das previsões que se provaram incorretas.

Por que não? Creio que há dois motivos principais. O primeiro é que Marx não previu, assim como ninguém previu nem acho que alguém poderia, a variedade de formas distintas de capitalismo que surgiriam. Falamos do capitalismo como uma só coisa, mas ele vem em muitos sabores diferentes, envolvendo modelos diferentes. O estado de bem-estar contemporâneo – moradia, educação, alimentação e provisão de saúde para os cidadãos, do nascimento à morte – é um desenvolvimento que desafia a base da análise marxiana do que é o capitalismo: creio que ele observaria de perto o estado de bem-estar e imaginaria que este basicamente minou sua análise, apenas pelo fato de ser muito diferente do capitalismo visto por Marx em funcionamento nos seus dias, a partir do qual ele extrapolou seus dados. Talvez ele argumentasse que a sociedade britânica em sua inteireza se tornou parte de uma burguesia global e o proletariado agora está em outros países; é um argumento possível, mas difícil de sustentar face às desigualdades que existem e estão crescendo em nossa sociedade. Mas o capitalismo de bem-estar escandinavo é muito diferente do capitalismo controlado pelo Estado na China, o qual é por sua vez totalmente diferente do capitalismo de livre mercado, salve-se quem puder dos Estados Unidos, que por sua vez é diferente do capitalismo nacionalista e altamente socializado da França, que novamente em nada se parece com o curioso híbrido que temos no Reino Unido, onde nossos governos são totalmente devotos do livre mercado e ainda temos áreas de bem-estar e provimento que eles não se atreveram a abordar. Singapura é considerado um dos países com maior livre mercado no mundo, ficando com frequência no topo ou próximo disso nas pesquisas sobre liberalização dos mercados, e ainda assim o governo possui a maior parte das terras no país e a maioria esmagadora da população vive em moradias socializadas. É a capital mundial do livre mercado e da moradia comunitária. Há vários capitalismos distintos e não está claro que uma simples análise que os abarque todos como se fossem um único fenômeno possa ser válida.

Uma das formas pelas quais isso se dá é a variedade e complexidade de nossos interesses nesse sistema. Em fevereiro, todos os trabalhadores na Foxconn tiveram seu salário básico aumentado em 25 por cento para o turno da noite. Isto não se deu por um ato de organização e protesto por parte da força de trabalho: foi devido a um artigo sobre as condições de trabalho publicado no New York Times. Pressões éticas vindas do Ocidente são uma das forças mais potentes pela melhoria das condições fabris em Shenzhen. Outro exemplo, bastante conhecido no mundo médico, mas não fora dele, é sobre o Mectizan, ummedicamento desenvolvido para tratar cegueira dos rios da empresa americana Merck. (As amostras iniciais que continham o composto químico utilizado para fazer o medicamento vieram de um circuito de golfe no Japão.) O medicamento foi desenvolvido por um custo considerável em 1987 e então dado, de graça, perpetuamente, salvando centenas de milhares de pessoas da cegueira e muitas mais de fome por permitir que 25 milhões de hectares de terra antes incultiváveis fossem usados para agricultura. Pode-se espremer isso dentro de um modelo marxiano descrevendo o caso como um golpe publicitário, mas não creio que essa análise funcione, mesmo que apenas por praticamente ninguém no mundo ocidental ter ouvido falar disso.

Isso é algo que Marx não previu e toca em outro fator que não poderia ser previsto. Trata-se da diversidade de nossos interesses e papéis no capitalismo contemporâneo. Marx falava sobre pessoas, de fato classes, como sendo divididas entre trabalhadores e proprietários dos meios de produção, e ele abriu uma concessão ao fato de que somos “portadores” desses papéis, diferentes aspectos os quais podemos desempenhar em momentos diversos, resultando que um proletário pode se ver competindo contra outros proletários, mesmo que seus interesses de classe estejam alinhados. O fato é que no mundo moderno nosso ser é muito mais fragmentado e contraditório que isso. Muitos trabalhadores têm pensões investidas em empresas cujo caminho rumo ao lucro depende de manter em um mínimo o número de trabalhadores que empregam; uma das coisas que levaram à contração do crédito foi a busca pelos fundos de pensão por retornos estáveis maiores para pagar as demandas pensionárias das gerações futuras dos trabalhadores aposentados. Portanto, em muitos casos temos a situação na qual pessoas perdem seus empregos devido a perdas sofridas pela tentativa de oferecer segurança futura para os próprios trabalhadores. Na maioria, somos escravos de salários, beneficiários do estado de bem-estar, financiadores desse estado, ao mesmo tempo em que somos os pensionistas atuais ou futuros que, neste particular se não em outros, são exemplares proprietários burgueses dos meios de produção. É complicado, e as intensas pressões éticas que podem, de modo intermitente, surgir como fardo às empresas são um sintoma da complexidade e multiplicidade dos interesses. É impressionante como variadas empresas se defendem usando a mais simples – e sob o capitalismo clássico, a mais confiável – resposta às críticas ao seu comportamento: nosso papel ético é trazer lucro aos nossos acionistas, gerar empregos e pagar impostos. É isso. O resto fica com o governo. Mas nunca dizem isso, talvez percebendo que intuímos o fato de nossas inter-relações e interesses conflitantes tornarem o mundo mais complicado do que isso.

Por mais complicado que seja o modelo de mundo de Marx, o mundo moderno é ainda mais complicado. Isto exerce grande pressão em mais uma área, que Marx reconheceria por meio de um ditado favorito que vem de Hegel: a quantidade modifica a qualidade. Isso significa que você pode ter um sistema explicativo que abrange certos fenômenos – neste caso, o modo pelo qual o capitalismo produz coisas que vão de encontro à corrente principal de acumulação e exploração – enquanto a direção geral permanece a mesma. Mas chega um ponto em que os fenômenos se amontoam e param de parecer exemplos contraditórios isolados e se assemelham a um desafio basilar às ideias centrais. Algo parecido com isso aconteceu com as contracorrentes no interior do capitalismo.

Tomemos as mais básicas medidas estatísticas sobre a vida, mortalidade infantil e expectativa de vida. Esta era de 43 anos na Grã-Bretanha em 1850, ano em que o Manifesto Comunista foi publicado pela primeira vez em inglês; está abaixo da expectativa de vida no Afeganistão de hoje, que por sua vez é menor do que a de qualquer país não atingido pela epidemia da AIDS. A expectativa de vida no Reino Unido hoje está acima de oitenta e subindo tão agudamente que, encrustado nas estatísticas, há um fato realmente estranho: uma mulher de oitenta anos hoje tem 9,2% de chance de viver até os cem anos, enquanto uma mulher de vinte anos tem 26,6%. Parece estranho que a pessoa sessenta anos mais nova tenha três vezes mais chance de alcançar um século, mas isto mostra o quão rápido se opera o progresso. A mortalidade infantil, frequentemente considerada como indicador de todo um conjunto de coisas (nível de desenvolvimento médico e tecnológico, vigor dos laços sociais, grau de acesso dos pobres a cuidados médicos, reconhecimento social de necessidades alheias), é algo pelo que Marx teria se interessado vivamente. Na Grã-Bretanha vitoriana, a taxa era de 150 mortes a cada mil nascimentos. Hoje, a mortalidade infantil é de 4,7 por mil. Uma melhora de 3191%. (Muitos países alcançaram menores taxas do que nós; estamos na 31ª posição no mundo – o mais baixo de todos é o lugar em que todo mundo vive em moradias comunitárias, com 1,92 por mil.) A taxa de mortalidade infantil global é de 42,09 por mil, um terço da taxa britânica nos dias de Marx. A AIDS causou um efeito terrível nesse caso: a Botsuana, por exemplo, tem expectativa de vida de 31,6 anos, mas de acordo com dados da ONU, subiria a 70,7 anos se removido o impacto da AIDS.

A que ponto este tipo de dados representa um desafio às ideias de Marx? Esses dados mascaram desigualdades significativas – o exemplo notável em Londres é que se você pegar a Jubilee Line a partir de Westminster em direção ao leste, a expectativa de vida masculina decresce um ano a cada parada pelas próximas oito – mas, deixando isso de lado, o quadro mais amplo é quase todos vivem mais e têm melhor saúde. Se isso é verdade, pode ser verdade que o capitalismo coerente e confiavelmente causa miséria? Pode ser verdade que o sistema é destrutivo se as pessoas que nele vivem simplesmente vivem mais? Tomemos os objetivos de Desenvolvimento do Milênio, anunciados na virada do século, estabelecendo metas para reduzir a mortalidade infantil em dois terços e a mortalidade materna em três quartos até 2015 do ponto de partida de 1990 (os livros ficaram levemente datados ao estabelecer o ponto de partida dez anos no passado), reduzir à metade o número de pessoas vivendo em pobreza absoluta, duplicar a porcentagem de crianças obtendo pelo menos educação primária. Pode-se ignorar um feito dessa escala? Se um sistema faz isso, pode-se dizer que produz nada além de miséria? O próprio Marx dizia que houve momentos nos quais o modo de produção capitalista poderia se transcender, como na invenção da sociedade anônima. Os indícios posteriores desta possibilidade de transcendência teriam exercido grande pressão em seus modelos intelectuais.

Um desafio final ao modelo marxiano e também ao seu retrato do futuro vem de algo que ele viu bastante clara e profeticamente: o poder produtivo extraordinário do capitalismo. Ele viu como o capitalismo transformaria a superfície do planeta e causaria impacto na vida de cada pessoa viva. No entanto, há uma fissura ou falha próxima ao coração de sua análise. Marx viu os dois polos fundamentais da vida econômica, social e política como trabalho e natureza. Ele não via estas duas como estáticas; usou a metáfora do metabolismo para descrever o modo pelo qual nosso trabalho dá forma ao mundo e por nossa vez somos formados pelo mundo que fizemos. Então os dois polos de trabalho e natureza não permanecem fixos. Mas Marx não levou em consideração o fato de que os recursos naturais são finitos. Ele sabia que não havia algo como a natureza sem forma criada por nossas suposições, mas não compartilhava nossa consciência contemporânea de que a natureza pode zerar. Este é o tipo de coisa chamado às vezes de irônica, embora mais próxima do trágico, e em seu centro está o fato de que o poder produtivo, expansionista, consumidor de recursos do capitalismo é tão grande que é insustentável em nível planetário. O mundo todo deseja ter um estilo de vida de Primeiro Mundo, e todo o mundo pode ver o que é isso na televisão, mas o mundo não pode tê-lo, pois queimaremos todos os recursos antes de chegar lá. A maior crise do capitalismo está sobre nós, predicada no fato inapelável de que a natureza é finita.

Este é um ponto que marxistas em geral tem relutado em abordar, por uma boa razão: o problema dos recursos no mundo de hoje, seja comida, água ou energia em todos os sentidos, têm a ver com a distribuição desigual e não com o fornecimento total. Há mais do que suficiente dessas coisas para todos nós. Escritores e ativistas na tradição marxista tendem a ressaltar esse ponto e estão certos em fazê-lo, mas precisamos também encarar o fato de que o mundo está se encaminhando a consumo e demanda ainda maiores da parte de todos. Todos simultaneamente. Esse fato é o oponente mais mortal do capitalismo. Para dar apenas um exemplo em relação a apenas um recurso, o consumo médio de água americano é de cem galões por pessoa diariamente. Não há água potável suficiente no planeta para todos viverem assim.

A questão é, portanto, se o capitalismo pode desenvolver novas formas, do modo que tem feito até agora, e apresentar mecanismos baseados em propriedade e mercado que impeçam a crise aparentemente inevitável que virá, ou se precisamos de uma ordem social e econômica totalmente diferente. A ironia é que esta ordem pode ser em muitos aspectos como a imaginada por Marx, mesmo tendo ele visto um caminho diferente para alcançá-la. Quando Marx disse que o capitalismo continha a semente de sua própria destruição, não falava sobre mudanças climáticas ou guerras por recursos. Se sentimos tristeza e desânimo na iminência das dificuldades acima, também devemos nos confortar no fato de nossa adaptabilidade imaginativa e engenhosidade que nos levou tão longe tão rápido – tão longe e tão rápido que precisamos agora desacelerar e não sabemos bem como. Marx escreveu, perto do fim do primeiro volume de O capital: “o homem se distingue dos outros animais pela natureza sem limites e flexível de suas necessidades.” Vemos as necessidades sem limites ao nosso redor e elas nos levaram onde estamos, mas precisaremos trabalhar na parte flexível.


Nota do tradutor: Toda a tradução foi realizada a partir do original em inglês, exceto as passagens do Manifesto Comunista, retiradas diretamente dos trechos correspondentes da tradução de Álvaro Pina (Editora Boitempo, 2007) e modificadas da mesma forma escolhida pelo autor (substituindo-se “a burguesia” por “o capitalismo”, “burguesa” por “capitalista” e todas decorrentes). Lanchester mistura trechos que não têm real continuidade no texto original de Marx e os apresenta fora de ordem (os cortes estão indicados na tradução), talvez para reforçar determinados temas ou para manter persuasiva sua substituição de palavras. Além disso, o leitor que cotejar a versão original do texto com a tradução verá que há diferenças significativas no sentido de uma e outra passagem, provavelmente devido a imperfeições da tradução inglesa utilizada pelo autor ou da tradução brasileira. Os termos da teoria marxiana utilizados pelo autor foram traduzidos segundo a forma mais corrente em português: proletários, mais-valia, mercadoria, etc., exceto quando usados visivelmente em outro sentido.

Vende-se cultura

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Autor  Verlaine  Freitas*

Originalmente Publicado no Blog do Verlaine; 

A foto à direita mostra uma reprodução, de boa qualidade, com uma boa iluminação e com um tamanho significativo, de um quadro do famoso pintor estadunidense Jackson Pollock. Não haveria nada de especial, não fosse o fato de a gravura estar colocada em um banheiro de um shopping center. Como todo o esquema de revitalização do espaço foi feito por um profissional qualificado, podemos supor com segurança que a gravura foi escolhida por ser aquilo que é: uma reprodução de uma pintura abstrata feita por um artista reconhecido no século XX. (Naturalmente, o fato de que as cores e a textura das manchas combinam com o ambiente foi levado em conta.)

A foto à esquerda, por sua vez, mostra o famoso mictório enviado por Marcel Duchamp em 1917 a um concurso de arte nos Estados Unidos. O nome que está grafado a mão, R. Mutt, refere-se a um humorista da época. Como vários livros de arte já comentaram abundantemente, trata-se de um gesto altamente crítico de Duchamp a vários fundamentos da prática artística e de todo o universo de apreciação estética, envolvendo as instituições (galerias, museus, exposições) e a crítica de arte. Trata-se de uma “obra” que não vale por sua qualidade plástica, ou seja, por suas linhas, cores e volumes, mas sim pelos significados ligados à crítica cultural que exerce através de seu gesto de recusa do status quo do mundo da arte, para usar uma expressão célebre de Arthur Danto. Duchamp não apenas não enviou uma pintura feita por ele mesmo, como escolheu um objeto fabricado industrialmente, feio e associado a urina.

 É fácil notar a simetria dos casos, pois, no primeiro, temos uma pintura típica de grandes galerias situada em um banheiro, enquanto o mictório, peça de um banheiro, passou a integrar uma galeria. Em ambos os casos, temos a questão da mudança de contexto, que faz um objeto trivial se tornar arte, e (a reprodução de) uma obra de arte se transformar em um objeto cujo significado se distancia do original, e é este último caso que gostaria de comentar hoje.

 A crítica que me parece mais evidente é a de que se trata de umabanalização da arte séria, reduzindo-a a um mero objeto decorativo em um local pouco “nobre”, em que se passa rapidamente, estando em um centro de compras. Ela perderia seu “valor de culto”, seguindo uma expressão famosa de Walter Benjamin, sendo absorvida em pleno momento de distração, muito distante da atitude contemplativa, mais longa e concentrada, típica da visita a uma galeria ou museu. Theodor Adorno diria que se trata de uma regressão de nossa percepção estética, em que a arte é forçada a se igualar aos objetos da realidade cotidiana e a que passamos a conferir tanta importância quanto o preço que nos cobram para vê-la. Jean Baudrillard diria que ela não chega a perder a sua qualidade como arte propriamente dita, mas é tomada como signo de erudição, digerida como mais um veículo de “culturalização”, quando a cultura é posta em segundo plano de existência, em que todos os objetos do grande centro comercial são amalgamados e vividos como suportes de significados alheios àquilo que cada um representa por si mesmo.

O que há de comum entre esses três autores é a consideração negativa do caráter mercantil da alta cultura, tornada homogênea aos demais produtos, em que impera o princípio capitalista de venda de objetos como suportes de significações agregadas pela publicidade, moda, tendências sociais etc. Nesse rebaixamento, a grande arte seria vivida como substituto para ela mesma, pois, em vez de os consumidores se dedicarem ao exercício reflexivo sobre seu significado, passariam a absorvê-la “aos pedaços”, como doses homeopáticas e sem significado expressivo, consistente. Trata-se do que Adorno chamou de semi-cultura (ou semi-formação), em que, em vez da ignorância, por um lado, ou do saber em sentido pleno, por outro, tem-se a mera satisfação de “fazer parte” do mundo da cultura, mas sem a mediação do esforço de sua aquisição elaborada.

De fato, temos uma aproximação que distancia, uma aquisição que empobrece, uma intimidade que nos torna estranhos à coisa. Em termos psicanalíticos, trata-se de um caso típico de solução de compromisso, em que se satisfazem, em um mesmo lance, dois desejos: o de participar da cultura erudita e o de se dispensar dela. O resultado é que esta última disposição pode ser satisfeita, mas agora com a enorme vantagem de uma menor consciência culpada ou senso de “inferioridade cultural”. Este seria o roteiro de grande parte do culto capitalista à personalidade, em que se evitam movimentos progressistas mais consistentes através de doses e signos de progresso, como é o caso em que a imagem pornográfica se coloca, em grande medida, no lugar da prática sexual efetiva.

Tendo a concordar com essa perspectiva, em termos gerais, mas creio que ela seja um tanto viciada por um consideração “descendente”, que considera a relação da alta cultura com a apropriação mercadológica de cima para baixo. Ela me parece levar excessivamente a uma visão por demais pessimista, uma vez que seu plano de fundo é quase sempre o de uma sistemática falsificação e empobrecimento da cultura. Creio que falte mais atenção ao que há de construtivo no distanciamento em relação a toda a base cultural sobre que se constitui a subjetividade. O princípio geral de análise daqueles autores parece convergir na acusação de que os aspectos mais substantivos e essenciais da cultura são diluídos em formas superficiais de apropriação. De meu ponto de vista, o fato de que uma boa reprodução de uma obra de arte moderna seja o objeto escolhido para ser comercializado contém não apenas esse índice negativo de expropriação da alta cultura, mas também uma indicação de certa “política do desejo”, que negocia com, elabora e constitui grande multiplicidade de formas em virtude de uma dinâmica sui generis. Esta deve ser vista como testemunhada pela — mesmo que incipiente —liberdade ou liberalidade com que diferentes signos são consumidos. Por mais que a atitude do consumo implique em alienação perante o que qualifica a cultura em sentido mais estrito (arte, ciência, filosofia, política), é preciso sempre colocar em jogo um princípio de compreensão que nos capacite a ver o quanto esse distanciamento se associa a um processo de subjetivação em que o gozo e o prazer com essa raiz mais objetiva das coisas cede lugar a uma apropriação como que em cascata de diversas formas de significado cultural, não se prendendo a nenhuma delas, e nem necessariamente se perdendo em meio a essa multiplicidade.

Não quero com isso, em hipótese alguma, negar que haja essa perda em alguma medida, devido ao movimento de flutuação indeterminada e sempre cambiante, impulsionada pelas tendências mercadológicas, especialmente ditadas pela moda. O que me parece extremamente importante é que essa semi-cultura não implica o desejo em sua totalidade, que ficaria reduzido a uma espécie de “semi-desejo”. Em outras palavras, a significação objetiva da depreciação mercadológica da alta cultura não nos permite deduzir uma expropriação dos desejos individuais. O otimismo cognitivo daquelas análises, em sua intenção de crítica cultural, acaba resultando em um pessimismo em relação ao que, na dimensão volitiva dos indivíduos, ultrapassa, excede, esse trilho conceitual traçado pela idéia de uma semi-cultura. — O outro lado da moeda é que, se prestarmos atenção de forma enfática a esta mobilidade dos desejos de apropriação sígnica da cultura, acabamos, por outro lado, por conferir mais “responsabilidade” a cada sujeito pelo fato de que se aprendeu a gozar com a oferta de alienação que a cultura sempre nos dá.

* Verlaine Freitas é professor do Departamento de Filosofia da UFMG

Uma coisa é certa: o futuro do Direito será bem mais complexo do que faz supor a tradição concurseira positivista que impera nas universidades brasileiras.

Autor: Camilo Gomes Jr.

Também publicado em: A Voz da Espécie

Uma coisa é certa: o futuro do Direito será bem mais complexo do que faz supor a tradição concurseira positivista que impera nas universidades brasileiras.

Sabiam que já estamos no século 21? Parece ridículo fazer uma pergunta dessas, mas, infelizmente, ouço tantas coisas de legisladores, juristas e professores de Direito neste país, que me vejo obrigado a indagar se estariam mesmo todos cientes de que já adentramos o terceiro milênio. Quer dizer, que no passado houvesse quem olhasse para o texto de uma lei com a mesma reverência irracional com que se contempla as páginas de um livro sagrado, vá lá! Mas hoje os tempos são outros, os textos (ao menos grande parte deles) também são outros; então, por que diabos a cabeça de muitos dos que lidam com o direito parece continuar a mesma de sempre?

Acompanhei há poucos dias uma discussão de mesa de cantina entre alguns estudantes de Direito em que o tema era, ainda, a interpretação dada pelo STF para o dispositivo constitucional que associa a palavra casalhomem mulher. Segundo os defensores do é-assim-que-está-escrito constitucional, a equação estaria clara na redação do artigo: homem + mulher = casal. “É o que diz a Lei Maior, e ponto final!”, vociferavam, exaltados.

Bem, a verdade é que essa discussão tirou o sabor da xícara de café que eu bebericava no momento, ali, a poucos metros dos que eram contra e dos que eram a favor da leitura ao pé da letra do que dispõe nossa Constituição. Descia-me garganta abaixo aquele líquido agora quente e insípido, enquanto eu me perguntava por que o Brasil de 1988 (ano da Constituição em vigor) deveria determinar de forma tão inexorável o Brasil de 2012, de 2020, de 2212… “É que não se pode reinterpretar ou mesmo alterar a intenção do constituinte originário, sabe como é.” Por que não?, pergunto eu. Por acaso os homens mais sábios e infalíveis do universo estavam todos reunidos em Brasília no final da década de 1980? Por acaso ali estavam os novos deuses do Sinai, legando ao povo tupiniquim uma lei gravada em pedra, inalterável, não reanalisável e não reinterpretável? Duvido que a maioria das pessoas ache que sim.

Bem, estamos em 2012, como eu dizia. E, lamentavelmente, nossos futuros juristas e operadores do direito estão ainda preocupados com a letra da lei. Jovens, que por uma característica própria da idade deveriam ser livres e libertários, exibem o bizarro prazer conservador de um membro do Opus Dei que se curva perante dogmas, como se a razão de existir da humanidade estivesse na cega sujeição ao que está posto e lhes é imposto. Agem assim justamente os que deveriam entender que o mundo muda a passos acelerados, enquanto avançamos para um futuro incerto (ao menos em muitos aspectos). Esses mesmos que deveriam ter em mente que o direito precisa, portanto, fazer-se cada dia mais dinâmico, ainda que, por sua própria natureza, esteja fadado a ser rastro dos pés que vão lá adiante, apressados. As universidades, e os cursos de Direito em particular, estão viciadas em formar positivistas concurseiros, com pouca ou nenhuma vocação para a pesquisa e com a discussão teórica do direito. Alunos que marcham à frente voltados de costas, de olhos fixos no que o passado estabeleceu. Gente que só quer saber de decorar o que está posto na lei e tratar de passar logo num concurso público qualquer.

Testemunhando esse tipo de comportamento, não posso deixar de refletir sobre algumas coisas. Como, por exemplo, sobre os vários avanços científico-tecnológicos já em curso, que poderão, amanhã, afetar enormemente vários campos do direito: cível, penal, trabalhista etc. Avanços que, embora já em fase prototípica ou em seus estágios iniciais, são simplesmente ignorados pela imensa maioria dos estudantes de Direito neste país.

Para citar um exemplo, recentes pesquisas com Estimulação Magnética Transcraniana (TMS, na sigla inglesa) vêm demonstrando que é possível modificar o cérebro humano de modo a ativar a inteligência emocional, o que permitiria o estabelecimento de empatia em pacientes portadores de Síndrome de Asperger ou autismo, que têm como um de seus traços justamente essa incapacidade de a pessoa se colocar no lugar de outrem, de partilhar de sua dor e aflições. Experimentos e resultados como esses nos fazem indagar (ou deveriam fazê-lo) se esse tipo de tecnologia (ou mesmo outra) poderia, num futuro relativamente breve, “consertar” os cérebros de psicopatas que, embora autores de crimes terríveis, tenham sido diagnosticados como tais.

Quer dizer, como será quando isso se tornar uma realidade, isto é, quando houver uma forma de “reparar o erro” na arquitetura neural de psicopatas? Imaginemos: Fulano assassinou a sangue frio, sob as piores torturas, doze membros de uma mesma família pelo mais banal dos motivos. Preso e submetido a uma avaliação, fica estabelecido o diagnóstico de psicopatia. No âmbito legal, isso implica, como sabemos, a inimputabilidade do réu, que não poderá ser punido pelos crimes. Dada a incompatibilidade de sua condição com a convivência em sociedade (já que sua soltura colocaria em risco as vidas de outras vítimas potenciais), o psicopata acaba recolhido a algum manicômio judiciário.

Mas, então, consideremos, surge essa terapia revolucionária capaz de curar esse indivíduo frio, calculista e (não sempre, mas em vários casos) letal. Como fica a situação? A verdade é que muitas perguntas se impõem nesse cenário. Eis algumas delas:

1) O psicopata que se submetesse a um tratamento como esse, uma vez comprovado seu “conserto”, sua cura, logicamente não poderia ser responsabilizado pelos crimes que cometeu no passado, pois não era imputável à época; porém, tampouco faria sentido a manutenção de seu confinamento num manicômio, visto que não mais padece da psicopatologia que justificava sua internação compulsória. O que fazer então? Como promover a aplicação da justiça num caso desses (afinal, nosso primitivo e dificilmente sepultável instinto retributivista ainda torna imperativa a ideia de que as vítimas do psicopata não podem ser ignoradas)?

2) Poderia o Estado proibir que psicopatas internados em manicômios judiciais tivessem acesso a esse tipo de terapia, a fim de manter a internação compulsória (como uma forma de pena, apesar da contradição que isso implicaria)?

3) Poderia o Estado obrigar psicopatas internados em manicômios judiciais a se submeterem a esse tipo de terapia (se sim, sob quais justificativas)?

Essas são apenas algumas interrogações suscitadas por esse possível cenário por vir.

Psicopatas e procedimentos potencialmente modificadores do cérebro, contudo, não são as únicas novidades prenunciadas de que operadores do direito deveriam estar cientes.

Outro dia, para citar outro exemplo, agora não na esfera penal, mas trabalhista, a televisão mostrava uma feira de robótica em Seul, na Coreia do Sul. Dentre os protótipos os mais avançados já desenvolvidos, um humanoide em particular chamou minha atenção: tratava-se da empregada-robô. Com braços e pernas que reproduzem relativamente bem os movimentos humanos, ela vinha programada para executar tarefas de faxina e outras atividades afins, numa residência qualquer. Com várias vantagens: estaria à disposição de seus donos 24 horas por dia; executaria seus serviços sempre com o mesmo esmero e sem pressa; não reclamaria de trabalho algum; não teria salário, nem benefícios, nem quaisquer direitos trabalhistas — afinal, não se trata de uma pessoa. Em troca de recarga e manutenção, seus donos gozariam das vantagens de se ter uma escrava-robô.

A pergunta inevitável é: o que será das empregadas domésticas (ou “secretárias do lar”, como querem os fiscais do politicamente corretíssimo)?

Alguns poderão responder: “Ah, mas que besteira! Isso é coisa que tão cedo ninguém verá ao nosso redor.” Mas a popularização de grande parte das novas tecnologias também foi historicamente descartada de cara por céticos de ocasião. Eu mesmo ouvi há poucos anos vários colegas de trabalho dizendo que o Kindle, o leitor de livros digitais da Amazon, não teria futuro, que aquilo nunca se popularizaria. Hoje, vivo trombando com satisfeitos e entretidos donos de Kindles nas salas de espera da vida e eu mesmo já estou em vias de adquirir o meu. E vejam que estamos falando de um produto que nem sequer é comercializado em lojas (só por meio do site da Amazon é vendido) e que, ao menos por enquanto, ainda é importado do exterior.

Tempo, demanda e concorrência são fatores cruciais que podem acabar trazendo empregadas-robôs para dentro de nossos lares bem antes do que imaginamos. E, com isso, repito: o que será das empregadas domésticas humanas? E por que não imaginar que operários de obras possam também ser substituídos em não muito tempo? E por que não incluir na classe dos substituíveis por robôs obedientes, práticos e sem direitos trabalhistas ainda outras categorias: seguranças de lojas, vigias noturnos, jardineiros, padeiros etc. São tantas possibilidades. (Aliás, a longo prazo, que profissão se salvará?) A coisa se complica ainda mais quando sabemos que precisamos adicionar a esse cenário o ingrediente final dessa receita do caos: uma população que já passa dos 7 bilhões, a grande maioria dos quais com precária formação educacional, e que mantém uma taxa de natalidade global ainda apavorante.

Não, não estou aqui escrevendo um texto neoludita, clamando pela destruição das novas tecnologias e pelo fim do progresso. Nós dependemos das novas tecnologias e do progresso. Somos uma espécie que cumula conhecimento e constrói o novo; sempre foi e será assim. O que estou querendo dizer é que as inovações por virem trarão desafios, desafios cada vez maiores, sobretudo no sentido de fazer esse progresso custar o mínimo de sofrimento humano possível (o que não será nada fácil). O futuro que hoje mostra o rabo, dá mostras de ser complexo e caótico. Talvez, seja preciso até mesmo, em alguns casos, rever muitos dos princípios basilares de nossa sociedade, que hoje nos são tão caros. Isso só o tempo dirá com certeza.

O fato é que, enquanto tudo isso for acontecendo, legisladores e operadores do direito estarão atolados até o pescoço num mundo cheio de conflitos de interesses e problemas sociais. Um mundo que exigirá mudanças normativas tão drásticas e ligeiras que se faz extremamente difícil arriscar hoje qualquer previsão do que resultará. Uma coisa parece certa, no entanto: as sociedades humanas que entraram no século 21 serão muito, muito diferentes das que saudarão o ano de 2100.

As pessoas deveriam estar mais antenadas nesse mundo novo que se constrói — que se seráadmirável não sabemos (talvez sim, talvez não), mas decerto será inevitável. Essa regra deveria valer ainda mais para os que se dedicam ao estudo do Direito, que deveriam estar de mente aberta para as mudanças inesquiváveis em sua área num futuro breve. Haverá muita coisa nova, muitos desafios a enfrentar com os quais ainda nem sequer sonhamos. E, quando penso nisso, sobretudo quando penso nisso, dá-me uma sensação de decepção e derrota ver jovens futuros advogados, promotores, juízes, professores e juristas a debaterem, com indignação e revolta, uma visão de Direito sem futuro algum, enquanto questionam se seria mesmo constitucionalmente admissível e semanticamente cabível que dois homens ou duas mulheres possam formar um casal.

Fonte: Bule Voador; 

Por Verlaine Freitas

Originalmente Publicado no Blog do Verlaine

No âmbito da filosofia e das ciências humanas, é quase sempre mais fácil dizer do que é falso, alienante, ideológico, injusto etc., do que seu oposto, ou seja, o que é verdadeiro, autêntico, válido, justo. Independente dos critérios que se tenha para estabelecer a validade de determinado fenômeno cultural, os casos que demonstram alguma espécie de falha, insuficiência ou negatividade mostram-se bem mais permeáveis ao olhar crítico do que os casos bem-sucedidos. Na experiência estética, por exemplo, parece-me obviamente muito mais fácil analisar criticamente filmes de cultura de massa do que cinema de arte. Por mais complexa que seja a estruturação da primeira, sua “falsidade” é bem mais facilmente localizável do que a “verdade” de uma obra de arte em sentido estrito.

No esfera psicanalítica isso se torna bastante claro ao se comparar a profusão de escritos de Freud sobre a condição patológica, neurótica, narcísica e psicótica, em contraste com a extrema escassez de referências ao estado de normalidade e de saúde psíquica. Nesse último caso, a estruturação psíquica não demonstra suficiente transparência em relação àquilo que está em seu fundamento, que a nutre internamente, de modo que para falar dela é necessário aplicar-lhe os conhecimentos obtidos na investigação dos sintomas neuróticos, bem como de situações análogas, como os sonhos e os atos falhos, que são compartilhados tanto por aqueles nitidamente neuróticos e os supostamente normais/saudáveis. Um índice dessa dificuldade freudiana para falar do âmbito normal é o quão impreciso é o conceito de sublimação, ligado aos processos psíquicos que demonstram um relativo sucesso no jogo de forças psíquico, em que há uma plasticidade suficiente da energia psíquica, de modo a gerar obras de arte, conhecimento científico e valores culturais significativos.

 A normalidade/saúde psíquica compartilha dessa dificuldade de se definir o que é válido em termos de dinâmica cultural, e quando lida a partir de teorias e se dedicam fundamentalmente a denunciar o estado de negatividade social, tal como a filosofia de Michel Foucault e dos autores ligados à Escola de Frankfurt, sofre uma valorização negativa bastante interessante. Tal como se sabe, Foucault e os frankfurtianos dedicam especial importância a conceber a realidade social como fruto de relações de poder. Em que pesem as expressivas diferenças entre o filósofo francês e os alemães, é bastante significativa a concordância na avaliação crítica de que a sociedade representa uma sedimentação histórica de relações de força altamente ideológicas, que caminham na direção de manter hierarquias sociais e formas de dominação que tendem a se tornar invisíveis ao olhar, por mais crítico que ele seja. Uma vez que a normalidade/saúde psíquica diz sempre respeito a uma determinada forma/capacidade do indivíduo de se inserir na sociedade, e como esta é vista eminentemente sob o prisma de mecanismos e relações de poder falsificadoras, coercitivas e alienantes, então uma terapia analítica, na medida em que torna um indivíduo saudável por inseri-lo de forma “adequada” no meio social, trocaria uma patologia individual por outra determinada socialmente.

A formulação freudiana que mais parece alimentar esse o olhar crítico-negativo é a de que o indivíduo saudável/normal psiquicamente deveria ser capaz de se adaptar às demandas sociais, sejam elas éticas, profissionais, afetivas, sexuais etc. Uma vez que, de acordo com aqueles filósofos, a estrutura social é essencialmente “doentia”, então o indivíduo seria levado a absorver, interiorizar, uma situação patológica coletiva como meio de “cura” para uma individual. Além disso, considerando o quanto a violência social é não apenas alienante e falsificadora da existência humana, mas também bastante castradora de possibilidades de manifestação das diferenças individuais, e como a neurose em larga medida demonstra uma espécie de aversão do indivíduo perante determinados padrões de modelos de normalidade, os sintomas neuróticos chegam a ser tomados como índice de uma verdade, como um testemunho de algo no indivíduo que é recalcitrante, refratário, a este processo tentacular e imperialista da sociedade, que tende a disciplinar, reprimir e domesticar impulsos que são alheios a seu desiderato de manutenção da ordem e da hierarquia social. A neurose seria então um testemunho sofrido do quanto a individualidade recusa a se dissolver em planos abstratos de relações de poder instituídas socialmente

 Há vários aspectos da teoria psicanalítica envolvidos nessa questão, de modo que deverei voltar a ela em outras oportunidades. Hoje quero focar especificamente esse conceito deadaptação, pois fornece uma primeira chave de leitura. Trata-se da aparente confusão entre adaptar-se econformar-se. Aquelas críticas parecem supor que quando o indivíduo se adapta à sociedade, ao mesmo tempo se conforma, se resigna ao status quo, às normas, padrões de comportamento etc. Haveria nesse raciocínio uma excessiva identificação entre o fato de ser capazes de lidar com as demandas sociais e a submissão resignada a elas, de modo que passamos de um indivíduo que em sua neurose vive um comportamento avesso à sociedade para um outro conformado, resignado a tais normas. É como se a adaptação significasse a aceitação da validade dos condicionantes sociais. É inegável que isso ocorra em uma grande quantidade de vezes, embora não sejamos capazes de especificar sua frequência. De fato, a necessidade de adaptação a um meio pode fazer com que os indivíduos sejam levados, pela força das circunstâncias, a tomar como válidas as regras que devem ser capazes de seguir para poder sobreviver, manter-se em uma profissão etc.

Apesar desse posicionamento pragmático/resignado existir, de fato, mesmo que o consideremos, por hipótese, o caso preponderante, isso não nos autoriza a igualar os conceitos de adaptação e conformismo/resignação no âmbito de nossa análise psicanalítica/filosófica. São duas disposições subjetivas bem distinguíveis, e a clareza em relação a elas auxilia pensar os casos em que elas se confundem, se mesclam. Segundo penso, a adaptação, tal como concebida por Freud em seus melhores momentos, indica a capacidade de se colocar à altura daquilo que é querido a nós, de tal maneira que sejamos capazes de estabelecer um diálogo de mão dupla entre o que desejamos e recusamos e aquilo que nos é demandado e negado pela sociedade. Por princípio, nem o indivíduo nem a sociedade são lugares-tenente nem da verdade, nem da falsidade. É necessário sempre a cada instante pensar a articulação entre os planos individual e coletivo de forma a construir uma equalização de possibilidades expressivas do que se afirma como legítimo no âmbito individual e no universal, coletivo. Esse diálogo tem, entre inúmeras faces, a tarefa, colocada ao indivíduo, de construir uma atitude politicamente orientada em relação a todas as pessoas com quem entra em contato, de tal forma que aquiescer, respeitar e aceitar um código de conduta e de vínculo afetivo, por exemplo, não necessariamente significa tomar as condicionantes da ação como válidos para si, mas para o próprio meio. Não se trata de ser hipócrita, mas sim de não querer impor padrões de autenticidade e de verdade subjetiva ao olhar e à receptividade alheias. Pode-se viver toda uma vida em um meio social de modo a seguir determinadas regras sem nunca considerá-las válidas para si, ao mesmo tempo sem se sentir “violentado” em sua disposição subjetiva por elas. — Assim, muito da neurose poderia ser entendido como a incapacidade individual de construir uma disposição subjetiva suficientemente maleável para uma inserção política na sociedade que admita como uma de suas cláusulas a consideração da existência, “verdadeira” ou não, de uma sensibilidade e um conjunto de valores diferentes daqueles nutridos individualmente.

Verlaine Freitas é Professor do Departamento de Filosofia da UFMG;

FonteGlobo Ciência

EdiçãoLuiz Henrique Coletto, Publicado no Bule Voador; 

Simone de Beauvoir em Paris, 1946. Foto: Henri Cartier Bresson

O programa Globo Ciência, da Fundação Roberto Marinho, é uma das poucas boas produções da Rede Globo (opinião personalíssima) que, além disso, está sintonizada com os preceitos constitucionais da comunicação social no Brasil. Na edição de 02 de março, o programa abordou o pensamento dos franceses Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir.

Simone é uma das autoras clássicas e de referência no estudo do feminismo, e a entrevista abaixo trata um pouco sobre as contribuições dela para o campo. Entretanto, a entrevista é bem mais interessante porque Miriam Pillar Grossi, a entrevistada, trata de temas bastante discutidos recentemente no país como aborto e violência doméstica, além de questões como jornada de trabalho e maternidade. A entrevista não é muito longa, nem aborda em profundidade a obra de Beauvoir, mas acho que as respostas da Dr.ª Miriam Grossi são interessantes para resgatar alguns pontos históricos do movimento feminista.

Miriam P. Grossi é professora do Departamento de Antropologia e Coordenadora do Instituto de Estudos de Gênero da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). É um das principais pesquisadoras brasileiras do campo da antropologia feminista e também de temas relacionados à sexualidade.

Você pode assistir aos quatro blocos deste programa no site do Globo Ciência. Segue abaixo a entrevista.

Como podemos relacionar a obra de Simone Beauvoir com a questão do papel social da mulher no mundo contemporâneo?

Os romances dela colocam em cena essas transformações dos lugares de homens e mulheres na contemporaneidade. “Memórias de uma Jovem Bem Comportada” é a história dela desde criança até virar professora. O livro mostra a geração da Simone de Beauvoir, que nasceu no início do século 20 e que depois passou pela Primeira Guerra Mundial, o que tem um impacto muito grande na vida das mulheres das elites, classe social da qual ela fazia parte. As elites na época viviam de renda. O vínculo do projeto de vida com o trabalho e com a educação vai ser algo importante para as mulheres que nascem no início do século 20. Até então, o acesso à educação formal era, em muitos países do mundo, proibido às mulheres.

A mulher não ter um trabalho remunerado era uma prova da riqueza masculina. Mulher trabalhar era algo para as camadas populares. Isso é uma transformação. No Brasil, a autonomia econômica é um dos principais eixos do Plano Nacional de Políticas para Mulheres. Aqui, o trabalho da mulher é fonte de riqueza social e imprescindível para a estrutura doméstica familiar conjugal.

E isso, do seu ponto de vista, é uma conquista das mulheres?

É ainda um processo. Um dos pré-requisitos para o ingresso da mulher no mercado de trabalho é a educação formal. No Brasil, é algo resolvido, porque as mulheres têm acesso às universidades. Mas ainda é marcado por outros formuladores de gênero que vão fazer que as mulheres selecionem careiras ditas femininas e homens, carreiras como engenharia ou técnicas. A autonomia econômica das mulheres é algo que ainda não está conquistado, no sentido de que o trabalho das mulheres não tem o mesmo reconhecimento e a mesma remuneração que o trabalho masculino.

E o aumento do número de mulheres no mercado de trabalho faz aumentar, também, a dupla jornada.

A dupla jornada é complexa, porque o ingresso das mulheres no mercado de trabalho implica em um sistema público que funcione, com creches, pré-escolas, escolas em tempo integral. Os casos da França e da Alemanha são paradigmáticos. Na Alemanha, não há escolas em tempo integral nem pré-escola de livre acesso para todas as crianças. A Alemanha optou pelo salário-maternidade, que garante às mulheres uma ajuda econômica do estado para ficarem cuidando das crianças. O que faz com que essas mulheres que ficam em casa se afastem do mercado de trabalho, de suas carreiras, e quando tentam voltar, sobretudo nesse tempo de crise na Europa, fiquem excluídas do mercado de trabalho. A consequência é que na Alemanha a taxa de natalidade é muito menor do que na França, onde há também apoio à maternidade, mas o sistema de creches e cuidados para as crianças são universalizados, todas as mulheres podem trabalhar e têm onde deixar as crianças. A dupla jornada é mais complexa do que só trabalhos domésticos, tem uma relação direta com os organismos públicos de cuidado de crianças.

No Brasil, se resolve com outros sistemas. Por um lado, o de mútua ajuda entre gerações. Avós e tias cuidam de netos e sobrinhos, dento de um conjunto familiar. Ou um sistema mais frequente, de empregadas domésticas, que supre essa falta de equipamentos públicos para cuidar da primeira infância; o que faz com que no Brasil haja mais mulheres ingressando no mercado de trabalho do que em outros países do mundo. O emprego doméstico é, por sua vez, fruto dos graves índices de analfabetismo e da pouca escolaridade no Brasil, que produzem uma massa de milhões de mulheres com pouca qualificação educacional para ingresso no mercado mais formal de trabalho. O trabalho doméstico, no mundo inteiro, é o primeiro trabalho no qual as mulheres vão atuar.

Há a ideia de que ser mãe é o processo natural de toda mulher. Ao mesmo tempo, a taxa de natalidade está caindo em diversos países e discussões sobre a legalização do aborto são cada vez mais recorrentes. Hoje, a mulher que não quer ser mãe já é socialmente aceita?

A possibilidade de não procriar é bastante remota. O que houve foi uma diminuição drástica dos índices de natalidade mundial por fatores externos, como as descobertas médicas do século 20, que diminuíram a alta taxa de natalidade e de mortalidade infantil. O segundo ponto diz respeito aos novos valores da modernidade que vão levar a um novo lugar da infância. As crianças têm um tratamento e uma centralidade na vida dos pais que é muito recente na história da humanidade. O lugar que a infância tem hoje é predominante. O investimento que a família faz hoje é emocional e, em grande parte, financeiro. O que está dado hoje é escolher quantos filhos se quer ter. Não se ter filhos é uma possibilidade, mas que não é vivida como tal, nem por homens nem por mulheres. Há uma obrigação social na reprodução. Uma obrigação que vai produzir as novas tecnologias de reprodução, todo um novo mercado no campo médico para a reprodução social.

No Brasil, temos uma contradição, que mostra justamente como as questões do feminismo não são iguais no mundo inteiro: aqui, o aborto é criminalizado. A criminalização do aborto é uma situação que coloca o Brasil, no que diz respeito às conquistas feministas, muito atrás de outros países com o mesmo índice de desenvolvimento. Não podemos pensar que as conquistas de igualdade tenham a ver com indicadores econômicos, porque não seria o caso. E nos faz pensar nessas contradições que as questões de gênero têm na contemporaneidade. A questão do aborto é um ponto nodal no campo do feminismo, uma vez que é um espaço de autonomia e de decisão das mulheres, muito menos do que não querer ser mãe, mas a decisão de quando elas vão querer ser mães. A maternidade, enquanto um valor social do feminino, não deixa de existir e não desaparece com o movimento feminista, pelo contrário, vai tomar uma outra centralidade.

No Brasil, temos a Lei Maria da Penha. Em termos de conquistas, como você vê a situação atual da violência do homem contra a mulher?

O Brasil, nesse ponto, está muito avançado, tem uma lei que reflete muitos anos de pesquisa no campo do feminismo no país inteiro, desde a década de 1970. Uma das primeiras políticas públicas de gênero no Brasil, nos primeiros governos depois do governo militar, foi a criação das delegacias da mulher. Vinte anos depois da criação das delegacias, a Lei Maria da Penha consolidou toda uma prática de políticas públicas de atendimento às mulheres em situação de violência que se alastrou em todos os estados do Brasil, em cidades de pequeno, médio e grande porte, essa é realmente uma das questões que considero das mais bem sucedidas das lutas feministas no Brasil.

Sublime nonsense

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Por Verlaine Freitas*

 

A posição da cúpula da igreja católica quanto às relações sexuais, expressa nas colocações e enunciados oficiais do Vaticano, é de que elas não apenas sejam praticadas somente após o casamento, quanto que sua finalidade, seu sentido próprio, é a procriação. Embora a castidade pré-matrimonial seja bastante instigante como objeto de análise, pois envolve um complexo de valores morais e de idealização do amor, gostaria aqui de focar a segunda parte daquele posicionamento, que restringe drasticamente o sentido da sexualidade ao plano reprodutivo. Interessa-me especialmente o caráter sumamente irrealista desse posicionamento.

Quem estuda filosofia e psicanálise, acostuma-se a ter sua atenção despertada por dois opostos: o óbvio e o absurdo. O primeiro, pelo fato de que sempre esconde alguma problematização, alguma sedimentação social de princípios que são bem mais complexos do que se gostaria de admitir, ou que planos ideológicos de concepção de mundo gostariam que fossem questionados. O absurdo, por sua vez, nos incita a pesquisar um sentido subjetivo latente, não manifesto, cuja explicitação remove aaparência de pura irracionalidade, nonsense. Nesse sentido, a posição oficial da igreja católica é tão absurda, que demanda um investigação específica, isso não apenas por uma consideração acerca da dinâmica e do valor que a sexualidade tem para a vida humana, mas já pela própria imagem que aquela instituição produz na mente de seus seguidores, considerando que a esmagadora maioria dos casais católicos abstrai completamente desse posicionamento em sua vida conjugal, tal como o fazem vários padres, tomando o amor como razão de ser do casamento, e isso não apenas em termos do afeto mais espiritualizado. Dito de forma bem direta: por que o Vaticano insiste em manter um posicionamento tão absurdo, contrariando a experiência afetiva mais do que evidente de que a sexualidade no matrimônio não pode ser reduzida à geração de filhos? 

A resposta que me parece mais clara à primeira vista é a de que a igreja católica quer “marcar posição”, estipulando um ideal de comportamento que, embora muito discrepante com a realidade dos afetos, demonstra seu empenho, determinação e perseverança em manter-se para além das vicissitudes com que os seres humanos tergiversam sobre o que é legítimo, válido, nobre etc. De forma análoga a como Deus transcende, ultrapassa, de forma incomensurável todas as limitações e fraquezas humanas, um ideal como aquele também não precisa se medir com as vicissitudes dos afetos. A Igreja, como instituição, se sentiria à vontade para encastelar-se em mundo de valores sublimes, inalcançáveis, cujo distanciamento em relação ao mundo prosaico e mesquinho, em vez de enfraquecer sua legitimidade, reforça sua imagem de proporcional transcendência em relação à esfera da vida profana, não-sagrada. Deste modo, apesar de se distanciar da realidade de forma evidente, ela seria vista, pela população católica em geral, como estando em seu “lugar próprio”, a saber, de guardiã de determinados valores que demarcariam um espaço próprio, não sendo meios através dos quais se poderia avaliar, questionar, a legitimidade da própria instituição como estipuladora de ideais de conduta.

Parece-me inquestionável que este é um dos fatores que contribuem para a continuidade não apenas deste posicionamento da Igreja, mais de outros que sofrem essa mesma característica de falta de observância da dinâmica dos valores ao longo da história dos povos. Por outro lado, isto é apenas um dos aspectos envolvidos, uma vez que o distanciamento sublime de um valor deve ser visto a partir de uma lógica de estruturação ideológica, dentro de um conjunto de práticas e vivências postas em diálogo entre formas culturais, instituições, e a massa de indivíduos que se relacionam com elas.

Por mais que a prescrição de abstinência sexual antes do casamento seja vista como pouco razoável nos dias atuais, ainda possui uma legitimação de princípios capazes de serem discutidos no universo social. Que o envolvimento sexual seja mediado por uma confirmação social de um compromisso afetivo, a bem dizer, ocorre em diversos graus e formas em muitos relacionamentos afetivos. Que tal assunção social seja adiada até o matrimônio é apenas um grau que muitos de nós pode considerar excessivamente rigoroso, mas, diria eu, não pode ser tachado de simplesmente absurdo, irrealista. Essa prescrição abrange todo o complexo de interação íntima entre duas pessoas, e o quanto cada casal está disposto a adiar a intimidade sexual dirá respeito às opções próprias de cada um. (Voltarei a este tema em outra postagem aqui no blog.)

 Outro é o caso da restrição do sexo à geração de filhos, pois fica claro que está em jogo aqui não propriamente este complexo total de envolvimento da intimidade afetiva entre as pessoas, mas sim apenasum de seus elementos: o prazer. O alvo da interdição é propriamente a mescla da sexualidade com toda a satisfação que sua prática proporciona. O que a igreja católica precisa sempre manter sob limites bastante estreitos é a assunção de que todo o torvelinho emocional, de prazer, de gozo, de entrega, de violência simbólica, de apropriação do corpo do outro etc., possa fazer parte da lógica de afirmação de si. A sublimidade do amor plenamente espiritualizado, dirigido a Deus, deve ser mantida a uma distância o mais segura possível do amor sexualizado, de modo a apagar a percepção degraus de proximidade e distanciamento entre ambos. As contradições, incertezas, os conflitos e a dialética própria do âmbito sexual, em cuja dinâmica jamais se pode esquecer de incluir as decepções, desgostos e amarguras, deve ser colocada em um polo oposto, diametralmente alheio ao princípio do amor plenamente espiritualizado. 

A posição do Vaticano é coerente. Para alimentar constantemente a soberania do Espírito sobre todas as vicissitudes dos desejos, sentimentos, interesses, fantasias, associando-o ao âmbito inequívoco, absoluto e perfeito de Deus, precisa manter a dialética da sexualidade submersa no plano da mera natureza, ou seja, dos fins naturais de reprodução da espécie. O êxtase sexual e a afirmação de si na aventura da sexualidade devem ser tendencialmente apagados, ter sua significação sistematicamente obscurecida pelo contraste cristalino com a certeza inabalável de se pertencer ao reino da bondade, da beleza e da verdade. Temos dois âmbitos, dois polos, cuja característica em comum é a ausência de ambiguidade presente nas vicissitudes do amor sexual: a natureza, com suas relações e dinâmicas biológicas, determinadas por mecanismos que estão aquémdos processos de subjetivação, e a alma, o espírito, associados ao caráter unívoco da razão, que aproxima os seres humanos daquele que é um puro Espírito, desprovido de toda a ambiguidade emocional própria dos seres humanos.

Deste modo, a irrealidade do afunilamento drástico do sexual à mera reprodução no matrimônio não apenas marca uma posição da igreja católica perante as vicissitudes da vida profana, quanto a exime da difícil tarefa de harmonizar a lógica do prazer conflitivo da sexualidade com a sobriedade de uma doutrina que preza pela elevação incondicional do espírito.

* Verlaine freitas é professor de Filosofia da UFMG; leia mais textos do autor no Blog do Verlaine; 

Por Erik Haagensen Gontijo*

O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.

O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais.

Bertolt Brecht

É famosa a poesia-panfleto de Bertold Brecht que faz a denúncia do analfabetismo político. Não há uma sala no funcionalismo público “de esquerda” que não a ostente em um quadro. Suas palavras são tão incisivas quanto sua aparente verdade, que se julga óbvia. E quem ousaria duvidar do que é óbvio, ainda mais quando é anunciado e assinado por um escritor do prestígio de Brecht?

Magis amica veritas. Quando o dramaturgo marxista Brecht diz que o analfabetismo político é a causa dos males sociais, ele declara seu próprio analfabetismo social, que julga ser o Estado o pólo determinante em sua relação com a sociedade civil, tal como os idealistas sempre pensaram, e exatamente o contrário do que Marx descobriu e que marca sua ruptura em 1843 com a filosofia política e o idealismo.

O politólatra se mostra perplexo com a apatia e o nojo popular contra a política. Ao invés de compreender, julga ao nível da ofensa: vejam Brecht dizendo que o povo é burro e imbecil. Quer dizer que o preço do feijão é uma decisão política? Bastaria que o povo, através de um representante legítimo, decretasse o preço? A questão da fertilidade da terra, da renda da terra, da produção e distribuição de instrumentos, meios de produção, do lugar do trabalhador e do proprietário, é política?

E a prostituta? Nasce de uma “decisão política” quanto ao emprego, ao salário, ao exército de reserva de mão de obra? Seria o movimento das bolsas de valores também fruto de “decisões políticas”? Brecht não viu, ou não quis ver, que tudo isso, inclusive o próprio Estado e a própria política, nascem de um processo anterior, material, a propriedade privada dos meios de produção, que cinde a sociedade em classes sociais antagônicas – e aí sim, uma delas pode se dedicar à política e a financiar os políticos, enquanto à outra resta a prostituição.

Esse entendimento subjetivista que Brecht compartilha com certa porção “crítica” do senso comum brada contra a “má vontade”, ou a falta de “vontade política”, e toda sua potência resolutiva se reduz a atribuir a culpa ao partido adversário, que tolhe os acordos políticos, ou ao indivíduo que exerce um cargo político de forma irresponsável, corrupta ou preguiçosa, etc. Pensar a economia sob a categoria da “vontade”, do “voto consciente” ou coisas do tipo é se condenar à incompreensão e perplexidade absolutas, é ignorar a natureza do capital e as possibilidades de sua superação. É apenas um protesto que acaba em si mesmo. Nada mais conveniente para o sistema.

A política é a guerra de todos contra todos por outros meios, quer dizer, a concorrência capitalista adentrada no Estado. A política é o exercício da dominação de classe erigida em Estado, esse “comitê” de administração dos negócios da burguesia, dos capitais em concorrência. O Estado não é este tal “comitê” por conta de uma ideologia, e nem é porque um partido de direita o estaria ocupando, mas sim porque ele é financiado pelo capital, ele é um elemento do sistema de valorização de capital. Se a esquerda não age tendo isso em vista, entra no jogo da política e o reproduz, mesmo quando tudo indica a contradição entre seus meios e seus fins (contradição que não tarda para ser resolvida, às custas dos fins); e não é por outra coisa que assistimos os partidos de esquerda capitularem, fazerem alianças espúrias e finalmente se transformarem em partidos burgueses. Exemplos não faltam.

A alienação não é um fenômeno de consciência, nem é uma questão de não ser politizado. Não basta termos consciência política ou de qualquer outro tipo (sintomaticamente, depois que as ditas esquerdas já tomaram o poder em tantos países e, no entanto, não trouxeram novos tempos, se tornou moda hoje em dia a consciência mística) para nos livrarmos dela (de fato, Marx nada tem a ver com Freud et caterva). Alienação é ser transformado em mercadoria, ou seja, mera força de trabalho que tem que ser comprada pelo salário. É um fenômeno material. Alienação é sinônimo de assalariamento, de propriedade privada. Uma vez que viramos essa coisa, que nosso ser se reduziu, por força do sistema, a isso, o resto vem a reboque – ou seja, o estranhamento da consciência.

A política é filha legítima da alienação. A ojeriza popular pela política decorre da intuição certeira, ainda que obnubilada, de que a política é o estranhamento elevado à condição de organização da sociedade. Eis aí um exemplo interessante de entendimento comum que se mostra muito mais crítico que o panfleto do pensador crítico, cuja pretensão crítica ainda presta o desserviço de ocultar o quanto reflete o que é estranhado.

* Erik Haagensen Gontijo é mestre em Filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais e Professor do Instituto Federal de Minas Gerais, campus Congonhas.

Algumas ideias podem fazer despertar o que há de pior em nós.

Autor: Camilo Gomes Jr.

Também publicado em: A Voz da Espécie

Numa de suas obras, Nietzsche escreveu: “nada percebemos de injusto, quando a diferença entre nós e outro ser é muito grande, e matamos um mosquito, por exemplo, sem qualquer remorso” (Humano, demasiado humano. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, p. 63). Nesse conciso pensamento, podemos encontrar a descrição precisa de um traço humano, demasiado humano, que ao mesmo tempo revela muito do que há de pior nos indivíduos de nossa espécie. Sem dúvida, é um fato bem intrigante que a imensa maioria das pessoas em todo o planeta não hesitaria um segundo sequer antes de esmagar uma formiga (sobretudo, se esta lhes houvesse picado) ou uma barata avistada a passear por sobre as panelas e alimentos em sua cozinha, ao passo que um número menor de pessoas seria capaz de matar um cão com a mesma consciência tranquila, sendo ainda menos numeroso o conjunto daqueles dispostos a matar um chimpanzé, sem remorso algum, pelos motivos mais banais que justificam nossos atos de inseticídio.

Essa distinção intuitiva que fazemos entre seres vivos menos e mais próximos de nós na árvore evolutiva, que parece gerar essa instintiva reação de repulsa por matar um chimpanzé que normalmente não sentimos diante de uma barata, pode ser contudo reprogramada de diversas outras maneiras. Como? Ora, pela adesão intelectual a alguma ideia. Ideias que povoam a cultura à nossa volta podem recondicionar muitas de nossas respostas instintivas e psicológicas a estímulos externos. Por isso, quase todo vegetariano e grande parte daqueles que mantêm uma dieta carnívora têm reações praticamente opostas diante da cena de um boi sendo abatido num matadouro. Uma ideia é um vírus, que, quando infecta nossas mentes, via de regra nos subjuga — visto que nos livrarmos de ideias das quais nos convencemos não é um feito menos prodigioso do que escalar o Everest. (Como bom mineiro, sempre gostei de frango com quiabo, bifes de boi acebolados e feijão tropeiro com muito torresmo e linguiça suína. Porém, outro dia vi na TV uns coreanos comendo carne de cachorro frita. A sensação de nojo foi imediata. Mas… como pode? Por que não sinto o mesmo diante de um cheiroso pernil de porco? A resposta não é senão o tabu — um tipo de ideia que nos é inculcada acerca do que é e do que não é permitido, segundo determinado código de valores numa dada cultura.)

Enfim, ideias são perigosas, poderíamos dizer sem muito exagerar. Elas têm o poder de controlar nossas vidas. Por isso, uma postura cética, pela qual busquemos sempre submeter as ideias que mais peso têm sobre nossas vidas a seguros testes de validade disponíveis, é algo tão precioso para a espécie humana. Porém, para nossa infelicidade, apenas muito recentemente em nossa história isso se tornou uma prática entre nós e, o que é ainda pior, uma prática não adotada pela imensa maioria dos 7 bilhões de pessoas que hoje povoam a superfície da Terra. A maioria ainda mantém como verdades absolutas suas ideias pessoais sobre crenças religiosas, sobre a sexualidade, sobre os papéis sociais, sobre os papéis sociofamiliares de cada gênero, sobre a melhor ideologia política, a filosofia mais adequada à vida moderna etc. O maior problema disso, como eu já disse, é que não somos donos de nenhuma dessas ideias; elas é que se fazem donas de nós. Num mundo superpopuloso, onde tantos abraçam cegamente as mais conflitantes visões, o preconceito, o racismo, a misoginia, a impunidade dos pares e a condenação dos diferentes, dentre tantos outros males sociais, revelam-se apenas consequências previsíveis dessa postura acrítica e crédula. Infelizmente.

Já escrevi um texto (“Nós e o resto: por que os humanos não se veem como iguais“) em que discorri sobre a história evolutiva de nossas visões sectárias, das tribos de ontem às classes sociais que fingem coexistir em paz no espaço urbano hodierno. E enfatizo que é importante ter em mente que as ideias têm um poder perturbador: o de transformarem nos insetos desprezíveis de que Nietzsche falava outros membros de nossa própria espécie, outros humanos como nós mesmos. Ideias podem transformar uma pessoa numa barata esmagável sem a menor sombra de remorso. O holocausto dos judeus sob o nazismo é um exemplo emblemático disso. Outro triste exemplo, bem mais corriqueiro, o Brasil inteiro pôde testemunhar recentemente.

No início deste mês (fevereiro de 2012), na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro, cinco jovens resolveram se divertir importunando um pobre mendigo na rua — e não sejamos hipócritas; isso infelizmente não é novidade: como sabemos, este é o mesmo país onde alguns jovens, filhos de famílias ricas e importantes, queimaram vivo, “por diversão”, um índio que dormia num ponto de ônibus em Brasília e se justificaram dizendo que não sabiam que era um índio, que haviam pensado que era um mendigo. (Sim, essa sensível justificativa consta dos depoimentos tomados.) Dessa vez, contudo, dois jovens que presenciaram a agressão ao mendigo resolveram interferir. Resultado: conforme depoimento de Kleber Carlos Silva, um dos rapazes que intervieram, enquanto um sexto agressor se juntou ao grupo dos importunadores de mendigos e segurou Kleber, os outros espancaram violentamente seu amigo, o estudante Vítor Suarez Cunha, de 21 anos. Vítor levou vários chutes na face e na cabeça e teve de ser submetido a uma cirurgia em que 63 pinos e 8 placas de titânio foram implantados em seu rosto e crânio.

Segundo o delegado encarregado do caso, embora o grupo contasse mesmo seis jovens, apenas cinco dos suspeitos teriam participado da agressão; o outro apenas teria assistido a tudo, sem se envolver diretamente, por isso este foi ouvido na delegacia e, depois, liberado. Dos que a polícia considera terem tido participação ativa, o único que ainda não havia sido preso apresentou-se na tarde de quarta-feira, 8 de fevereiro, acompanhado de seu advogado. Além disso, um outro fato que chamou a atenção foi o de que esse mesmo grupo, segundo consta, não é estreante na arte de agredir covardemente os mais fracos. Depois da divulgação da notícia de que haviam sido presos, outras pessoas apareceram denunciando abusos sofridos por parte de alguns dos rapazes detidos.

A agressão contra Vítor e seu amigo pode-se entender (eu disse entender, de um ponto de vistaobjetivo, não justificar), quando se leva em conta o histórico violento de jovens que integram um grupo com um típico perfil de gangue. Ao defenderem o mendigo, Vítor e Kleber se intrometeram no que não lhes dizia respeito, e isso não podia ficar barato. A agressão condiz com o comportamento troglodítico padrão desses grupos, sempre propensos a responder com violência, de forma inconsequente. Mas o que me assusta acima de tudo é o início dessa confusão, que acabou de modo tão trágico para os dois únicos jovens que tiveram uma atitude solidária. O que me causa arrepios é pensar no porquê de um mendigo ser escolhido gratuitamente para servir ao sádico divertimento de um grupo de jovens que claramente não se guiam por uma moral fundada numa sólida base humanitária.

É quando voltamos ao perigo das ideias e do poder que elas têm de transformar homens em insetos desprezíveis. A ideia de que algumas pessoas seriam superiores a outras não é nenhuma desconhecida nossa. Ela acompanha as diversas sociedades humanas desde os primórdios de nossa história. Mesmo em nossos dias, mesmo em nosso país, ela está por aí, por toda parte — e com frequência a expressão dessas ideias discriminadoras entre os melhores e os piores, os mais e os menos, a maioria (autoritária) e a minoria (que deve se manter reprimida) são flagrados nas redes sociais. Não pensem que mendigos servindo de objeto de zoação para jovens sádicos seja aprovado apenas por uma insignificante minoria dos que passam o dia no Twitter, no Facebook ou em redes afins. Indivíduos que se julgam de algum modo superiores a outros pululam nesses sites: inúmeras postagens expressando o que há de pior contra homossexuais, nordestinos, ateus, pobres, mulheres que desfrutam de sua liberdade sexual como querem…

Para citar um caso que chamou minha atenção, no que diz respeito aos jovens que agrediram o mendigo e espancaram o estudante que interferiu, nada menos do que um soldado da Aeronáutica usou seu perfil no Facebook para se manifestar em defesa dos agressores. Para ele, seus “manos” não haviam feito nada de mais. Mas não só isso. Ele criticou a polícia e a Justiça pela prisão dos suspeitos e, quando uma jovem se manifestou, dizendo ser amiga do estudante Vítor e estar horrorizada com a brutalidade do que haviam feito a ele, o soldado Yuri M. Ribeiro respondeu: “Que pena, ninguém mandou seu amigo se meter na briga“. (Na briga? De seis homens jovens e bem nutridos contra um pobre mendigo?) A moça, indignada, se exalta: “Ele foi homem, uma coisa que você pelo jeito não seria na hora“. É então que o soldado deixa sua tréplica mais do que lamentável: “Se eu estivesse na hora, ele não sairia vivo!” (Em minha cabeça, uma pergunta: e esse sujeito é um militar em meu país?) Diante do comportamento de seu soldado e das provas apresentadas contra ele, a FAB acabou expulsando Yuri Ribeiro. Convenhamos, o mínimo que poderia ter feito.

Identificado e encontrado pela polícia, o referido mendigo, por sua vez, agora se recusa a apresentar denúncia. Diz que não se lembra de nada daquela noite. Pode-se entender por quê. Infelizmente, ele sabe que, denunciando ou não, sua vida continuará a ser nas ruas. Nas ruas de um país onde, para muitas pessoas, não há nada de mais em se divertir com um mendigo, mesmo que isso signifique agredi-lo ou atear-lhe fogo. O miserável vítima desses jovens criminosos sabe o que é viver uma vida sob os olhares indiferentes ou enojados de tantos que o enxergam, todos os dias, como um inseto asqueroso. Ele sabe que muitos torcem, calados, para que alguém um dia venha e o esmague, como a uma barata imunda, para que não tenham mais que conviver com sua imagem suja e fétida no ambiente à sua volta.

O mendigo sabe o que é ser sujeito passivo na torturante sintaxe que expressa uma terrível ideia.

Fonte: Bule Voador; 

A mesa não tinha mulheres. Eram oito pessoas, nenhuma era mulher. Os sete primeiros homens falaram e parece que não perceberam a distorção de uma das atividades que mais juntou gente no Fórum Social Temático, lotando o Teatro Dante Barone, na Assembleia Legislativa, sexta-feira 27 à tarde. O oitavo dos homens a discutir “o sentido da democracia” parecia o mais sensível e mais preocupado. Boaventura de Sousa Santos só começou sua palestra depois de reclamar da falta de presença feminina na mesa enquanto tantas mulheres se faziam presentes na plateia. Mas não foi só por isso que, ao final, foi aplaudido de pé.

“A luta democrática tem que ser anticapitalista.” Começou assim a aula do sociólogo português. A democracia era o tema do encontro daqueles oito homens, e Boaventura não deixou de mencionar a sua ausência ou a ameaça de que deixe de existir. Passamos por um momento em que, segundo ele, um dos maiores países capitalistas, a China, dispensa a democracia e outro grande bloco tem a democracia suspensa. A União Europeia, “o berço da democracia e que tentou ensinar ao mundo durante cinco séculos os valores da civilização”, tem agora suas instituições democráticas suspensas e vive uma crise que é econômica e política.

“A presidenta disse q o Brasil já teve neoliberalismo, mas que agora os brasileiros não vão deixar o neoliberalismo entrar novamente. Que deus a ouça.” Boaventura foi tão enfático porque “o neoliberalismo conseguiu esvaziar a democracia de sua vertente redistributiva, e por isso temos hoje democracias de baixa e de baixíssima intensidade”. O roubo e a acumulação originária primitiva chegaram aos salários dos operários europeus, disse Boaventura, encerrando o debate dos motivos da crise e iniciando o das suas alternativas.

A esquerda esqueceu-se de pensar

“As instituições democráticas já não satisfazem as necessidades dos cidadãos.” Alertando sobre as alternativas que se nos apresentam (que podem ser piores do que o que já temos) à crise das instituições, acrescentou que “a democracia representativa virou-se de costas para as populações”. Não surpreende, portanto, que o anarquismo seja a única tradição sobrevivente nos movimentos europeus. Para ele, esquerda e direita “golpeiam da mesma forma” os povos camponeses, indígenas e quilombolas nesse continente.

Impossível avaliar alternativas ao capitalismo que coloca a democracia em crise sem passar pelos movimentos de jovens que estão tomando os espaços, especialmente na Europa. “Autodeterminação dos povos é o que pode nos defender da loucura da globalização neoliberal. A sociedade civil nos responde nos únicos espaços não tomados pelo capitalismo financeiro: as ruas, as praças. A presença dos movimentos nas ruas mostra que a democracia está nas ruas em estados antidemocráticos.” Não faltou crítica à esquerda, no mundo todo, que não pensa, não debate, não progride: “a grande maldição da esquerda no século XX foi transformar militantes em funcionários. Temos que começar pela refundação dos partidos e pela democracia nos movimentos. As cartas dos movimentos da Puerta del Sol mostram essa preocupação pela horizontalidade, pela democracia. A esquerda tem que pensar e a esquerda esqueceu-se de pensar”.

O fascismo ameaça a democracia

E a democracia, para Boaventura, passa pelo respeito à diferente história dos povos do Brasil, não apenas pela redução da pobreza. E, nesse caminho, chama a repensar muitos dos nossos instrumentos de politica. “É possível que amanhã tenhamos que voltar às lutas ilegais”, afinal, é possível que o fascismo, que já toma conta, substitua a democracia no próximo período. As lutas podem ter que ocorrer “por dentro e por fora do Estado, constitucionais e não constitucionais”. Falando exclusivamente de Brasil, em uma crítica direta à presidenta Dilma, disse que “os movimentos sociais talvez hoje se sintam menos acolhidos pela Presidência da República de gente que lutou como eles”.

Boaventura defendeu a autodeterminação como um outro modelo de desenvolvimento, que é parte da luta democrática. “Temos que nos habituar a pensar que os nossos objetos de consumo – tecnologia, roupas – têm sangue. Trabalho escravo é sangue. Há um ciclo de produção que nega a vida, que destrói a vida. E nos obriga a pensar numa outra pauta de direitos humanos, o direito da natureza, que pode nos dar uma nova forma de vida, de prosperidade, que pode não passar pelo crescimento econômico.”

Sobrou também crítica ao governo do Rio Grande do Sul, do amigo Tarso Genro, “um dos homens que melhor pensa a politica no continente latino-americano”. O sociólogo amaciou o ego do governador pouco antes de afirmar que ele precisava fazer no estado a reforma política que não conseguiu aprovar enquanto ministro da Justiça. Tarso falara logo antes de Boaventura e mencionara a dificuldade que passou, também criticando o governo petista do qual fez parte. Bem informado, o português falou na falta de comunicação entre as secretarias estaduais, que muitas vezes não se comunicam nem internamente.

O horário das utopias realistas

A luta dos povos indígenas, quilombolas e campesinos é sempre tema de Boaventura, e dessa vez não foi diferente. “Não podemos tolerar que os indígenas morram todos os dias à beira da estrada porque foram expulsos de suas terras. A reforma do Estado, a refundação da democracia, dos partidos, dos movimentos, é a nossa única garantia da sustentabilidade da democracia. A direita está mostrando que dispensa a democracia. Quem não pode dispensar a democracia é a esquerda. Portanto não podemos falar de sentidos da democracia (Tarso falara no sentido das democracias grega, estadunidense, latino-americana e brasileira). Temos é que democratizar a democracia. Os povos têm que ter suas formas de democracia respeitadas. Indígenas urbanos tinham dificuldade de se adaptar ao Orçamento Participativo porque tinham sua forma de decisão coletiva”. Uma anedota serviu para justificar o argumento do sociólogo. Contou que, quando foi promulgada a constituição da Bolívia, nas primeiras eleições uma comunidade votou 99% a favor de um candidato. A oposição então fez uma queixa de que teria sido fraudada. Foram averiguar e descobriram que se tratava de uma comunidade indígena que passou quatro dias consensuando em quem votar. “O que parecia uma fraude eleitoral era uma forma de democracia de alta intensidade que estaríamos perdendo se não calculássemos essas formas de democracia alternativa.”

Boaventura encerrou com a chamada ao debate. Para que a esquerda pense e proponha alternativas. “Temos q pensar uma nova forma, que não é o capitalismo verde. Podem dizer que é uma utopia, mas todas as utopias têm um horário. E esse é o horário das utopias realistas.”

Fonte: Blog Somos Andando; 

Marcos Nobre é professor do Departamento de Filosofia da UNICAMP e pesquisador do CEBRAP e do CNPq.Luiz Felipe Pondé tualmente é professor de Ciências da Religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (

 

Neste segundo encontro da seção “Desentendimento”, os filósofos Marcos Nobre e Luiz Felipe Pondédebatem sobre os conceitos políticos de esquerda e direita. A mediação ficou a cargo do jornalista e diretor de redação da Folha de S.Paulo Otavio Frias Filho. A cada mês, o leitor encontrará no blog um debate em vídeo em que os convidados apresentam opiniões divergentes sobre um tema proposto pela revista serrote.

 

 

Bloco I

“A prática de esquerda diminuiu a liberdade individual”

Após a introdução de Otavio Frias Filho sobre a evolução histórica desses conceitos, cabe a cada filósofo avaliar sua pertinência e a validade. Luiz Felipe Pondé defende a ideia segundo a qual uma sociedade de direita é a que valoriza a liberdade individual, em que o governo não se lance a “dirigir gestos, palavras e visões de mundo”. Marcos Nobre, por sua vez, afirma que a prioridade da esquerda deve ser garantir a “autonomia dos indivíduos”. Em seguida, os dois tratam dos princípios que acreditam nortear a esquerda e a direita.

Bloco II

“O verdadeiro debate da esquerda é sobre qual é a natureza da democracia”

O segundo bloco começa pela discussão sobre o colapso da União Soviética e a natureza do pensamento de esquerda diante de crises, como a queda do Muro de Berlim. Para Marcos Nobre, existe uma dívida histórica para com os movimentos operários: “A história do século 20 é uma história de compatibilização de democracias de massa e capitalismo”. Pondé contesta Nobre em dois momentos: discorda da ideia segundo a qual o debate da esquerda é sobre a natureza da democracia – “Há também autores liberais que estão preocupados com a natureza da democracia” – e também refuta a afirmação de que “a União Soviética atrapalhou a história da esquerda”.

Bloco III

“Eu sempre tenho mais medo do Estado do que de uma empresa”

A existência ou não de uma hegemonia ideológica do pensamento de direita é o tema que abre o terceiro bloco. Para Pondé, mesmo que pareça que haja “uma convergência histórica tanto da esquerda histórica quanto da direita histórica para conservar a democracia”, predominaria hoje, na verdade, toda uma cultura de esquerda – no âmbitos das instituições que reproduzem o pensamento. Marcos Nobre, por sua vez, vê um equilíbrio de forças e princípios. E chama a atenção para o declínio do liberalismo econômico dos anos 90 (em razão da crise das bolsas entre 2007 e 2009) e da democracia americana exportada para o mundo (por culpa do governo belicoso de George W. Bush).

 

Bloco IV

“Questionar limites é que faz uma pessoa ser de esquerda”

No quarto bloco, destaca-se a relativização ou a defesa dos chamados valores pétreos e inquestionáveis. Marcos Nobre não vê limites no debate e na ação democráticos: “Vemos hoje um processo de desvitalização da democracia e das instituições, que estão se esclerosando”. Já tratando da pertinência de uma posição liberal-conservadora em um país com desigualdades como o Brasil, Pondé afirma que o liberalismo não nega o bem-estar econômico a quem necessita, nem se mostra arredio a mudanças.

Bloco V

“A alternativa como uma reforma ou revolução não faz mais sentido”

A última parte se inicia com a reflexão sobre como a esquerda pensa o mercado, se considera necessário implementar uma reforma ou apresentar uma alternativa. “A relações entre mercado e Estado, mercado e sociedade e Estado e sociedade são diferentes em cada lugar”, diz Marcos Nobre ao defender que o mercado não tem uma forma única e imodificável e deva ter uma “regulação democrática que tire dela elementos de distribuição de renda injustos”. Em seguida, discutem-se temas como bioética e natureza. Sobre este último, diz Pondé: “O pensamento de direita é relacionado com certo pessimismo com relação ao ser humano. (…) A esquerda é muito mais ingênua com relação ao ser humano”.

Fonte:  Blog Do Instituto Morais Salles;

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