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Notícias do mundo Jequitinhonha

Carta Nº 8 – “No caminho dessa cidade…”

Amigo, escrevo daqui, dias depois de feliz prosa pelo telefone. De cá a cada dia novos amigos. Raro ligação dos antigos, imaginem talvez que de cá pouco seja o tempo pros daí. Pouco tempo, mas tempo, sempre. Felicidade saber que irias pro carnaval na cidade para muitos maravilhosa. De cá, cantorias são outras. São muitas. Aqui não as canto, as conto a ti. Cantaremos em breve, como há tempos. Tim Maia que o diga… Assim como suas marcas de muros de esquinas racionais… Lhe escrevo de terra cantada em verso, Itamarandiba. “Pedra corrida, pedra miúda rolando sem vida”? Miúda e sem brilho não vi a vida de cá. Um dia com Milton desvendo esse verso. Vida de cá é grande e com luz de faróis de encontrar caminho. Marquei na chegada entrevista com Gabriel pro dia que vinha. Agricultor, vereador, fundador do sindicato dos trabalhadores das empresas de eucalipto da região. “Amanhã posso conversar de manhã, mas tem de ser cedo na minha roça, pois tenho de tirar leite das vacas”. “Marcado!” Corri pro hotel pra descanso, dia seguinte madrugada me aguardava de pé. Da janela do quarto vi a cidade cercada, de verde mural. Em adesivo espalhado, “Itamarandiba, a capital brasileira do eucalipto”. Com muito orgulho? Cedo de pé, sonolento corri para a frente do sindicato. Não tardou e Gabriel estava lá. “Bora pra roça”. Em meio a eucaliptos, chegamos na roça. “Acho que não conseguirei voltar sozinho, impossível guardar caminho em meio à ‘monopaisagem’”. “Volto com você. Realmente difícil guardar caminho por aqui”. Recepção da cachorrada com latidos felizes do Jagunço e rosnados territoriais de Scooby Doo. Logo fiz amizade com Jagunço, com Scooby Doo, mais tarde. Gabriel apresentou um pouco da casa e fomos buscar as vacas pra sonhar com o futuro requeijão. Tirando leite, Gabriel foi filosofando sobre “ser “, “fazer”, sobre “estar no mundo”. Conversamos tirando leite, andando pela roça, fazendo café (de lá), cozinhando milho (idem), comendo ovo (ibidem). “Luta aqui tem história. Um dia população me cercou pra me linchar em praça. Disse: ‘Por que vocês querem me agredir? O que eu fiz pra vocês? Não vou correr, se quiserem, terão de me matar aqui’. Percebi que estava ferindo grandes interesses”. Histórias muitas, de greve, de exploração, de organização, de Vale sonhado. Fim de tarde nos despedimos dos passarinhos, dos caninos amigos e rumamos volta. Prosa última foi com cafezinho, já em sua casa na cidade, com sua esposa Jesus, me contando história do começo da história do seu amor com Gabriel. Êta coração… Dia depois, cantoria foi com todos, na casa do Jacinto, para todos Jacintão, atual presidente do sindicato. E violão estremeceu sorriso, por todos. Sabiá a Faroeste Caboclo, diversos passaram ali. “Venha na época que fazemos seresta, saímos em serenata pelas ruas”. “Vale voltar”. Dia seguinte, poesia das cantorias foi abafada por passeio entre os eucaliptais. Nossos debates fervorosos em Viçosa eram poucos perto da realidade que vi aqui. “Eucalipto trará o progresso pra região. Redenção do Vale da Miséria”. Em Itamarandiba, dois mil empregos na fase inicial. Mecanizou sua produção. Hoje, menos de quatrocentos. Mão-de-obra não carece. Mecanização aumenta lucro dia-a-dia, pra onde? Multinacional Arcelormittal, das maiores fortunas da Terra, vai levando… “Viemos gerar riqueza pro Vale. Riqueza econômica é que tem mania própria, de viajar pra longe, repare não, luxo bobo”. Vale da Miséria? Abastece ganâncias tantas… Miúdas e quase sem brilho… Rolando sem vida…. Pra onde? Acredite, o secretário da Secretaria de Desenvolvimento dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (SEDVAN) não é nem do Jequitinhonha nem do Mucuri. Não me alongarei. Escrever sobre isso pede reflexões maiores. Vale, se reflita… Estradas são muitas… Quando tiver um tempo, leia um grande e saudoso poeta de cá, Ronald Claver. “Quando um dia esse povo vai mudar o curso da vida, o mapa, a geografia? Quando vai apressar o passo e erguer o braço?” Parto de Itamarandiba com novos mapas, com o peito contente pelo braço erguido de Gabriel, pelo curso da vida de Jacinto, por novas geografias que sabemos (juntos), se podem. Se perto, essa prosa encontraria mesa de buteco. Como vezes tantas… Muitas que vem, com abraços como muitos, de sonho teimoso, de peito mudado… Escrevo de Serro, em breve companhia linda para o carnaval que se chega e descanso em Santo Antônio de Itambé. Mande notícias das folias de terra boa. Até a próxima curva companheiro.

Serro, 02/03/11


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