Primeiras Expedições
Em meados do Século XVI, as primeiras expedições financiadas e organizadas pelo governo português, conhecidas como entradas, atingiram o Vale do Jequitinhonha. As entradas partiam de um ponto no litoral e tinham como objetivos apresar índios, explorar o interior e procurar pedras e metais preciosos no Brasil.
A expedição de Francisco Bruza Espinosa (1553/1554), acompanhada do jesuíta padre Aspilcueta Navarro, foi a primeira a penetrar nas terras do Jequitinhonha. A entrada de Espinosa-Navarro, acompanhando o Rio Jequitinhonha, chegou à Serra do Espinhaço, na região do Serro, Diamantina e Minas Novas, alcançando também a foz do Rio, no município de Belmonte. Outra expedição, a de Sebastião Fernandes Tourinho (1573), encorajada pelas notícias das potencialidades do solo e da existência de jazidas de esmeraldas, partiu em busca de minerais, passando pelo rio Araçuaí. Tourinho recolheu turmalinas, crisólitas, safiras, topázios, berilos e águas marinhas. No ano seguinte, a expedição de Antônio Dias Adorno subiu o Rio Jequitinhonha e no solo do vale do Araçuaí colheu pedras e minérios que revelavam a existência de metais preciosos.
Obstáculos
Vários foram os obstáculos à penetração das frentes de ocupação, principalmente no Médio e Baixo Jequitinhonha. Dentre eles, destacam-se a presença da Mata Atlântica, o acidentado relevo do Complexo do Espinhaço, a resistência dos índios e as constantes dificuldades de comunicação.
Mata Atlântica
A Mata Atlântica presente na região do Vale do Jequitinhonha compreendia áreas que se iniciavam abaixo da barra do rio Araçuaí, indo além das serras que fazem limites entre os vales do Jequitinhonha e Mucuri, abrangendo todo o lado leste do Rio São Francisco.
De acordo com Igor Moreira, no livro O Espaço Geográfico, “inicialmente, a Mata Atlântica estendia-se por uma faixa junto ao litoral do Brasil, do Ceará ao Rio Grande do Sul, com mais de um milhão de quilômetros quadrados. A Mata desenvolveu-se sobre as encostas montanhosas do planalto Brasileiro que acompanham o litoral do país. A evaporação da água do mar e a ação de ventos resultam em elevada umidade na região costeira, criando condições ideais para o desenvolvimento de árvores grandes e abundantes. A vegetação típica dessa paisagem é rica e variada, incluindo madeiras nobres, como o jacarandá, hoje quase extinto pelo extrativismo predatório”.
As imensas derrubadas feitas para a agricultura e as queimadas dos troncos e raízes extinguiram a força de reprodução da área. Grandes porções de Mata Atlântica foram convertidas em campos de erva gramínea, capim ou capoeira fraca. A devastação foi tão grande que os moradores foram obrigados a procurar madeiras para suas construções em locais bem distantes. No final do Século XIX, a devastação e o processo de assoreamento do Rio Jequitinhonha já haviam reduzido drasticamente a Mata do Jequitinhonha.
Índios
A população indígena do Vale do Jequitinhonha foi forte obstáculo à colonização e exploração da região. Dentre as populações indígenas que ofereceram grande resistência, destacam-se os botocudos, que ocupavam uma faixa específica em Minas, chamada de Sertões do Leste, que compreendia os vales do Jequitinhonha, Mucuri e Rio Doce.
Os botocudos denominavam-se Borun e eram grandes conhecedores da região. Isso lhes garantia vantagens na defesa de seus territórios. Para Cezar Moreno, autor do livro “A Colonização e o Povoamento do Baixo Jequitinhonha no Século XIX”, o termo Borun pertence à classificação lingüística do tronco Macro-Jê. Os índios assim denominados viviam em bando, grupos ou tribos, tendo cada um seu líder – aquele que mais se sobressaía no grupo , o melhor caçador e valente guerreiro, chamado pelos portugueses de capitão. Cabia a este chefe indígena resolver todas as querelas internas e comandar os homens e mulheres nas caças, ou nas lutas e disputas com outras tribos vizinhas, quando eram invadidos nos seus domínios de caça e coleta, ou violada suas fronteiras. Eram considerados violentos, antropófagos, traiçoeiros, implacáveis e sobretudo incapazes de serem civilizados; sobre eles deveria cair com violência o braço armado da repressão”
Existiam também outras nações indígenas dentro da mata, porém, eram menores e viviam em constante guerra com os Borun. Entre elas, destacam-se os Macuni, Maxacali e Panhame. Ainda hoje os índios Maxacali habitam a região próxima ao Rio Jequitinhonha. Um dos resquícios culturais do povoamento indígena encontra-se nos nomes de cidades e rios. O próprio nome do Rio Jequitinhonha é provável que venha de jequi, “armação para apanhar peixes” e tinhonha, “rio largo”.
Fonte:
CD-ROM da UFMG sobre o Vale do Jequitinhonha
A Colonização e o Povoamento do Baixo Jequitinhonha no Século XIX – A “Guerra Justa” Contra os Índios – César Moreno (Canoa das Letras)
O Vale e a Vida – História do Jequitinhonha – Maria Nelly Lages Jardim.
Igor Moreira, O Espaço Geográfico, Editora Ática, 1998
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